Sobre o Professor Paul Singer, por Leda Paulani

Leda Paulani, Paul Singer, Rui Braga

Quando entrei na FEA/USP em 1973, o nome de Paulo Singer já era bastante pronunciado. Conhecido intelectual e militante socialista, professor muito reputado de nossa escola mas dali ausente pois aposentado compulsoriamente pela ditadura militar, ele representava para nós, jovens estudantes indignados com a tirania do regime, o símbolo da resistência e da determinação daqueles que sabem que a realização do espírito humano, entendida como topos a ser buscado de modo imperativo, passa pela luta permanente das regras contra o arbítrio  e pela vigília constante da razão contra a força bruta.

Aproximando-se nossa formatura, em 1976, quisemos o Prof. Paulo Singer como paraninfo. Foi nossa forma de afrontar a ditadura, mas não foi efetivada. Depois de uma enorme confusão, o nome foi proibido pela direção da escola e, nós, em resposta, resolvemos que não haveria então solenidade alguma de formatura e solenidade alguma houve.  E foi nesse mesmo ano que entrei em contato com o trabalho intelectual do professor. Atendendo uma demanda da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, um grupo de pesquisadores do CEBRAP conduzira uma investigação sobre os diversos aspectos das condições de vida e trabalho das populações periféricas da metrópole paulistana. Postados em conjunto no livro São Paulo, 1975: Crescimento e Pobreza, lançado naquele 1976, os resultados dessas diferentes pesquisas, além da enorme quantidade de informações que traziam, num tempo em que as estatísticas não estavam a um clique da mão, eram devastadores quanto às consequências sociais do já então chamado “milagre econômico”, um trabalho, enfim, caído do céu para aqueles que, como nós, queriam questionar o triunfalismo econômico dos governos militares e o mote, então repetido à exaustão, de que era preciso esperar o bolo crescer para depois dividir. Dentre os nomes importantes que constituíam a equipe de pesquisa, como Cândido Procópio e Fernando Henrique Cardoso, estava lá Paulo Singer.

Alguns anos mais tarde, em 1983, me deparo novamente com seu nome numa tarefa de gigante que foi a coordenação da equipe que fez a tradução de O Capital de Marx para a coleção Os Economistas, que, em tempos já mais abertos, a Abril Cultural lançara com enorme sucesso. Fui aguardando um a um os volumes da grande obra, pois não a possuía, nem a tinha lido. Fora proibida nos meus tempos de estudante e faltara depois coragem para enfrentá-la sozinha. Foi a excelência da tradução e o texto fluido da nova edição (a revisão final também era do Professor Singer), quase permitindo entrever o sorriso sarcástico de Marx a cada página e a cada ironia com os personagens e lemas do pensamento liberal, que me empurraram livro adentro. Mal sabia eu que me tornaria professora de economia política e que utilizaria, como até hoje ainda utilizo, essa primorosa tradução d’O Capital para tentar passar aos alunos a riqueza e a importância do pensamento marxiano.  Para mim, portanto, até então, seu nome representava disposição de luta, espírito democrático, respeito pela docência e rigor intelectual.

Pessoalmente só fui conhecê-lo como aluna do curso de pós-graduação em Economia do IPE-USP em 1985. Perceberia então, a partir de minha convivência com ele em circunstâncias diversas, que em nada eu me enganara. Naquele ano, quando descobri que ele iria ministrar um curso na pós-graduação, eu imediatamente me inscrevi. A disciplina versava sobre tópicos avançados de distribuição de renda e no início de junho daquele ano a Argentina lançava o Plano Austral, visando estabilizar monetariamente sua economia. A inspiração do Plano vinha das ideias sobre inflação inercial, que já circulavam no Brasil há algum tempo. A inflação era o grande assunto da economia em nosso continente naquela quadra histórica. Apesar de o tema não estar diretamente vinculado a sua disciplina, pedimos a ele, um tanto receosos, que fosse alterada a parte final de seu programa para discutirmos a experiência do país vizinho e a literatura sobre isso que se avolumava. Ele imediatamente acedeu. O espírito democrático do Prof. Singer era absolutamente concreto. Ele o vivia e o praticava.

Depois convivi com ele no CEBRAP, onde fiz um programa de formação de quadros no período 1986-1988. Foi sob a supervisão dele que nós, os seis pós-graduandos integrantes do programa, oriundos de diferentes áreas das humanidades, lemos Smith, Ricardo e Marx. Nos seminários de discussão desses clássicos, ele enfrentava a nossa prepotência juvenil com firmeza e disposição, mas sempre sereno e paciente, demonstrando enorme gosto pelo que fazia.  Sua vocação para a docência e o ensino era tão presente quanto seu espírito democrático.

Cerca de 10 anos depois, ele escrevia para a Coleção Zero à Esquerda da Editora Vozes, coordenada pelo Prof. Paulo Arantes, o livro “Uma Utopia Militante”. Convidou o grupo de jovens professores que editavam a revista Praga, uma revista de estudos marxistas declaradamente inspirada na New Left Review, para que discutíssemos o que estava escrevendo. Eu saí da primeira dessas reuniões achando que ele iria nos dispensar. Não tínhamos deixado barato e tínhamos criticado o quanto podíamos todas as suas ideias e considerações sobre a economia solidária, o trabalho cooperativado e a crença que ele tinha em seu poder de transformação. Mas deu-se o contrário. Várias outras reuniões se seguiram e quando o livro foi editado, lá estávamos todos nós, destacados nas primeiras páginas, nominados nos agradecimentos. A honestidade intelectual do Prof. Singer era tão verdadeira quanto seu espírito democrático e seu DNA de professor.

Fui também colega do Prof. Singer na FEA-USP, onde me tornei professora em 1989. Pude, por conta disso, testemunhar a legião de jovens que ele influenciou e encantou com suas ideias revolucionárias sobre a necessidade de transformar o mundo e de como colocar mãos à obra imediatamente. Muitos dos alunos que passaram pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da USP, criada pelo Prof. Singer, acabaram por ser orientandos meus, principalmente porque, a partir de 2004 ele foi para Brasília comandar a recém-criada Secretaria Nacional de Economia Solidária vinculada ao Ministério do Trabalho. Em todos esses alunos eu via o mesmo brilho nos olhos quando falavam da experiência na Incubadora, da alegria e da honra em serem por ele comandados. Os depoimentos eram sempre muito parecidos: como ele era empolgado, como trabalhava incansavelmente, como fazia de tudo, o que fosse preciso, com garra e entusiasmo, misturando-se a todos, alunos, funcionários e professores ali envolvidos. A crença na prática revolucionária era nele tão firme quanto o espírito democrático, a vocação docente e a honestidade intelectual.

Em 1996, quando, em plena cheia do mainstream econômico, um grupo de professores de economia de várias partes do país, heterodoxos e críticos, fundamos a Sociedade Brasileira de Economia Política para enfrentar a avalanche liberal que se avizinhava, o Prof. Paulo Singer, além de  renomado intelectual, era economista profundamente respeitado por seu conhecimento de Marx. Não tivemos por isso nenhuma dúvida em colocá-lo como presidente de honra de nossa entidade. No Histórico do nosso site assim ele está até hoje e assim permanecerá.

Nesses tempos sombrios que ora vivemos, no panorama lúgubre que envolve nosso país e o mundo, nada melhor do que lembrar e celebrar o vigor intelectual e a disposição de luta do Prof. Paulo Singer, seu respeito pelo ser humano, sua crença inquebrantável de que o homem pode ser melhor do que foi até agora e construir um mundo onde a realização do espírito humano seja possível. Que sua luz continue a iluminar essa luta que é de todos nós e que sua força nos impeça de esmorecer frente ao horizonte distópico que nos encara.  Muito obrigada.

 

Leda Maria Paulani, em 24 de março de 2019

(Cerimônia no Cemitério Israelita do Butantã)

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