“Paul Singer: uma vida por outra economia” por Aline Mendonça

1 – O encontro com o Mestre.
A primeira vez que o Professor Paul Singer e eu nos encontramos eu era apenas uma jovem estudante que iniciava a formação acadêmica e dava os primeiros mergulhos na militância política. O ano era 1999 e estávamos inaugurando a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) da Universidade Católica de Pelotas – um projeto de extensão universitária muito caro para todos os professores e alunos que participaram daquela experiência. Tratava-se de um período em que o Brasil vivia uma forte incidência da ofensiva neoliberal, da reestruturação produtiva e suas consequências para o mundo do trabalho. A economia solidária surgia como uma alternativa dos trabalhadores frente a crise e o professor Paul Singer era o principal teórico e expoente desta outra economia.
Foi no extremo sul do Brasil que eu o vi e o ouvi pela primeira vez. Podia ter sido um encontro distante entre uma aluna curiosa que de longe escutava atenta um importante economista do Brasil e isso, por si só, já seria suficiente para explicar o meu respeito e admiração. No entanto, tive a feliz oportunidade de acompanhá-lo na viagem de volta até Porto Alegre e – durante três horas – dividimos a palavra, a escuta e tivemos uma convivência de aprendizagens reciprocas. Naquele momento percebi as primeiras grandes características do professor Singer, dignas de um Mestre: tratava-se de um ouvinte muito atento, um observador muito respeitoso e, consequentemente, um mestre aprendiz. Era o encontro do meu olhar jovem e sonhador que almejava mudar o mundo com o olhar experiente, que refletia uma vida de luta e, ainda assim, continuava almejando mudar o mundo. Ali conheci Paul Singer, uma das minhas principais referências que aqui apresento como um dos Mestres do Mundo homenageados pelo projeto ALICE e pelo professor Boaventura de Sousa Santos.
Alguns anos se passaram e por vezes o professor Singer e eu continuamos nos esbarrando – tendo em vista os esforços por outra economia e por outro mundo possível, mas só agora nos reencontramos com a cumplicidade de outrora. Foram mais de 10 horas de entrevista e uma narrativa contada com uma riqueza de detalhes que, com muito cuidado, reproduzo neste texto.

2 – Origens e infância na Europa
Paul Israel Singer nasceu em Viena na Áustria no dia 24 de março de 1932. Oriundo de uma família judia – operária. Seus avós eram operários e trabalhavam em uma fábrica de pentes. Os dois eram da Morávia – uma região da Europa central que constitui atualmente a parte oriental da República Checa. Os avós se conheceram na fábrica, namoraram, casaram e tiveram três filhos: Frederico, Carolina e Margarida.
A mãe de Paul Singer se chamava Carolina, mas não por acaso. Havia uma fundação com o nome de Carolina (que pertencia a alguém importante) e oferecia um dote para as meninas que se chamassem Carolina. Os avós aproveitaram a oportunidade e assim nomearam a menina.
Não se trata de uma observação pontual da sua história, Singer acredita que esta situação tem estreita relação com a sua subsistência pois, supõe, que por conta do dote sua mãe pode aprender costura num famoso atelier de alta-costura de Viena – profissão que anos depois os sustentou por grande parte da vida.
No período da Primeira Guerra Mundial, sua mãe tinha entre 15 e 18 anos, e trabalhou como caixeira viajante na Itália – vendia bijuterias e joias. Trabalhava viajando pela Itália e, nas férias ou em momento oportuno, voltava para Viena levando comida para a família, pois à medida em que a guerra avançava, a comida ficava escassa e passava-se fome na Áustria. Nos últimos anos de guerra, principalmente, era muito difícil encontrar comida. Segundo Singer, a Primeira Guerra Mundial foi muito sangrenta, muito destrutiva e sua família viveu as consequências diretas deste período.
Depois da guerra a mãe continuou trabalhando na Itália, em uma firma austríaca. Na época, o norte da Itália era austríaco. Trieste, onde trabalhava, foi uma importante cidade do Império Austro-Húngaro. Com o término da primeira guerra, acabou o império e as diferentes partes viraram países independentes: a Tchecoslováquia, a Hungria, a Itália. Neste período pós-guerra, sua mãe Carolina teve um caso com o patrão – segundo ela contou mais tarde ao filho. No entanto, houve uma situação de infidelidade por parte do patrão e, por isso, a mãe pediu demissão e voltou pra Viena.
Ao voltar para Viena, Carolina já não era mais tão jovem (tinha trinta e poucos anos) e na ânsia de constituir sua família acabou recorrendo a um corretor de casamento judeu que a apresentou para aquele que mais tarde viria ser o pai de Paul Singer. O pai tinha sido oficial da guerra (assim como o avô e tios), primeiro tenente do exército. Paul Singer ainda guarda algumas lembranças, como um binóculo, do pai oficial de guerra.
Casados, os pais de Paul Singer uniram as economias e compraram uma mercearia em Erlaa – subúrbio operário próximo de Viena – que pertencia aos avós paternos que já estavam velhos e não queriam mais trabalhar.
Em agosto de 1934, quando Paul Singer tinha dois anos, seu pai faleceu. Segundo Singer, a morte do pai foi resultado indireto de uma guerra civil. Houve um golpe fascista na Áustria e o partido social democrata reagiu com milícias armadas – veteranos da guerra. Houve lutas entre o exército e as milícias. Preocupado com os pais que haviam mudado para Viena, o pai de Singer foi visitá-los e, no percurso de volta, deparou-se com uma difícil situação de guerra da qual sobreviveu, mas o choque deixou fortes consequências psicossomáticas e uma infecção pulmonar que o matou.
Mesmo sem uma lembrança clara da época e do pai, Singer guarda consigo um episódio deste período na memória. Seu pai estava no hospital – já bastante debilitado – e sua mãe o levou para visitá-lo, mas o pequeno Singer não o reconheceu e foi logo correndo para a cama de qualquer homem pensando que era o seu pai.
Singer praticamente não conheceu o pai. A figura masculina em sua vida foi seu avô – de quem lembra possuir um enorme bigode, mas o fato é que foi criado e sofreu grande influência das mulheres de sua casa: mãe, avó e tia avó. Como sua mãe ficou viúva, sua avó materna, que era separada de seu avô, mudou-se para Erlaa para ajudar na mercearia e na sua criação. Dos dois anos e meio até os seis anos de idade Singer viveu em Erlaa com sua mãe e avó de quem tem uma lembrança muito carinhosa.
Singer lembra da infância com muita ternura. Segundo ele, foi uma infância feliz, frequentou a escola (jardim de infância), brincava com os demais meninos, tudo normal, até a chegada do Hitler.
Em fevereiro de 1938, Singer tinha quase 6 anos, e aconteceu um episódio que julga importante em sua vida – foi quando se percebeu judeu. Na época, estava brincando com outras crianças quando receberam umas bandeirinhas. Todos corriam serelepes com as bandeirinhas em direção às tropas para celebrar a anexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha –de Hitler, e antes de seguir com as demais crianças passou na mercearia para contar a novidade para a mãe, que tirou a bandeirinha de sua mão e disse: – não, você não vai! – Mas, por quê? – Porque você é judeu.
Sem ter a menor ideia do significado de ser judeu, aos 6 anos, Singer se deparou com uma dura realidade. Tudo mudou, a partir de então. Hitler tomou o país e os judeus foram proibidos de ter qualquer empreendimento, qualquer negócio e qualquer relação com não judeus. Criou-se um apartheid! Os judeus só poderiam vender aos judeus, portanto os não judeus não poderiam comprar nada que fosse de propriedade de judeus. Tratava-se de uma medida para que os judeus saíssem do país. Diante das circunstâncias, a mãe de Singer precisou se desfazer da mercearia, pois a maioria dos clientes não eram judeus e sim operários não judeus que também sofreram bastante durante a crise dos anos 1930, ficaram desempregados, etc. Apesar das ordens de Hitler, houve uma solidariedade entre os judeus e os operários pobres. A mãe de Singer vendia os produtos a crédito para os operários que, diante do apartheid, não precisavam pagar, mas ainda assim todos pagaram o que deviam – fato que deixou Dona Carolina muito comovida.
Para além das diretivas sobre como a sociedade deveria tratar os judeus, Hitler resolveu que os judeus precisavam ser reconhecidos pelo nome, neste caso decretou uma lei onde todos os judeus deveriam adotar nomes judeus. Todos os homens deveriam se chamar Israel e todas as mulheres deveriam se chamar Sara, neste caso Singer passou a ser chamado de Paul Israel Singer e sua mãe Carolina Sara Singer.
Depois disso, Singer e família se mudaram para Viena onde moraram com uma tia-avó que se chamava Helena . Em Viena foi matriculado em uma escola judia. Singer foi alfabetizado em alemão e teve uma infância normal, nenhum trauma de infância que se lembre. De certa forma, foi preservado do peso do antissemitismo. Em sua casa falava-se a respeito, mas a única coisa que compreendia neste período de sua vida é que precisavam ir embora. Sua mãe estava convicta de que ficar na Áustria seria a morte. Hitler não estava ameaçando diretamente matar todos os judeus, como ele acabou fazendo, mas estava tomando medidas anti-judeus.
Singer tinha uma tia que já havia migrado para o Brasil nos anos 1920 e constituído família e estabilidade. Isso facilitou a escolha de sua mãe sobre o lugar para onde se refugiar: São Paulo.
Foi muito difícil conseguir o visto. Tratava-se de uma época de crise e nenhum país queria imigrantes. Sua avó pode imigrar para o Brasil porque era mãe de uma imigrante que já estava no país. Quando chegou no Brasil a avó conseguiu visto para os outros dois filhos (mãe e tio de Singer), que puderam trazer, respectivamente, seu filho e cônjuge. Assim, Singer e a mãe migraram para São Paulo.

3 – O início da vida no Brasil
No dia 24 de março de 1940 – dia em que Singer fazia aniversário, a bordo de um navio italiano chamado Neptúnia, às 19 horas e 52 minutos, Singer, sua mãe Carolina, seus tios (tio e esposa) e sua tia-avó chegaram no porto de Santos.
Ao contar sobre o episódio, Singer recordou o menino que completava 8 anos de idade naquele dia. Como estava viajando com sua família, ele passou o dia esperando um abraço de parabéns, uma palavra de carinho e, no entanto, ninguém lembrou. A ansiedade de chegar em um novo país, de recomeçar a vida em um lugar desconhecido e a angústia de não mais voltar para a Áustria encobriu o outro significado que aquele dia tinha: o aniversário do pequeno Singer. De toda forma, Singer não ficou ressentido ou triste com o esquecimento dos familiares. Ele mesmo também estava vivendo muitas emoções e intuiu que não era o momento oportuno para festejos.
No Brasil, já em São Paulo, foram viver na casa dos tios junto da avó e dos primos. A tia – irmã da mãe – casou com um imigrante polonês que havia conhecido em Viena e juntos resolveram viver no Brasil dos anos 1920. Quando Singer e os demais familiares chegaram ao Brasil, o tio – cunhado da mãe – estava estabilizado financeiramente, ele era representante de uma fábrica de cadeiras de São Bernardo do Campo. Por conta dos familiares refugiados, o tio trocou a casa que vivia com a família por uma casa maior que coubessem todos. Singer e sua mãe viveram com a família da tia por volta de dois anos. Singer lembra com carinho da generosidade da família que os acolheu para uma nova vida.
Embora tenha sido filho único, Singer teve uma relação fraternal muito significativa com os primos e uma vida familiar muito intensa. Gradativamente os familiares que chegaram em 1940 foram se organizando e saindo da casa que os acolheu. O tio – irmão da mãe – comprou uma loja de roupas na Móoca e passou a morar lá; a mãe, certa altura, sublocou um quarto e um banheiro de uma família judia e lá foram viver. Mesmo em casas separadas, a família manteve uma relação intensa.
A família toda falava alemão e em casa era a língua mais usual, pois os recém-chegados não falavam nada de português. A família manteve a tradição judaica. Singer e seus primos fizeram o Bar Mitzvá e seguiram outros rituais judeus.
Duas semanas depois de sua chegada ao Brasil, Singer foi matriculado no segundo ano do primário no Colégio Franco-Brasileiro, onde seu primo também estudava. Sem entender português, Singer foi se adaptando ao colégio com a ajuda do primo que falava alemão e português.
Apesar das dificuldades comuns de chegar em um ambiente novo, Singer diz ter sido extremamente acolhido no Brasil e não sofreu preconceitos ou intimidações pelo fato de ser refugiado e estrangeiro. Tem apenas a lembrança de um caso isolado: uma professora que o chamava de alemãozinho.
Na sequência, a mãe de Singer não podia mais pagar o colégio, então Singer foi estudar em uma escola pública chamada Grupo Escolar Marechal Deodoro. Na época ainda tinha muitas dificuldades em falar português, mas já conseguia se comunicar. Singer era bastante esforçado, lembra que era a única criança que voltava das férias com a lição de casa toda feita. Sua mãe precisava interrompe-lo para que também pudesse brincar e se divertir.
No Brasil, sua mãe começou a trabalhar com costura juntamente com a tia-avó Helena. Foi costurando que Dona Carolina sustentou a família e assim o fez até sua aposentadoria – aos 70 anos de idade.
Rapidamente e com o apoio da mãe, Singer foi se tornando fluente em português. Dona Carolina tinha mais proximidade com a língua latina em decorrência do fato de ter vivido 13 anos na Itália e, assim, dava aulas para o filho. No entanto, Dona Carolina nunca aprendeu ser fluente em português, mas era o suficiente para se comunicar e viver a vida.
Dando sequência a vida, Dona Carolina casou-se novamente, com um judeu alemão, operário de fábrica (ganhava próximo ao salário mínimo), que nunca aprendeu a falar português direito e era bastante religioso. Foi com o padrasto que Singer aprendeu sobre os valores da religião, pois sua mãe não era tão religiosa – Singer pondera que talvez sua mãe e outros familiares tenham aderido à religião de forma mais intensa por causa da ofensiva nazista contra os judeus. Hitler que os fez voltar ao judaísmo.

4 – Juventude e início da militância política
Na adolescência, Singer já se reconhecia como um jovem de esquerda.
O ano de 1945 é considerado notável para Paul Singer. Primeiro porque foi o fim da II Guerra Mundial e a derrota do nazi fascismo; e segundo porque um dos grandes efeitos do fim da guerra foi a redemocratização. As tropas voltaram para o Brasil e Getúlio Vargas – o presidente do país na época – legalizou todos os partidos, inclusive o Partido Comunista, e convocou eleições para uma assembleia constituinte.
Nesta altura, Singer tinha 13 anos e estava cursando o terceiro ginásio em uma escola pública quando de repente os professores, ao invés de dar as aulas corriqueiras (latim, matemática, geografia…), começaram a falar de política. Foi uma grande surpresa para Singer e seus colegas, mas o fato é que os temas dominantes passaram a ser: democracia, constituição, direitos humanos, etc. Foi uma formação intensiva de política e Singer, naturalmente, ficou entusiasmado e mais interessado sobre o assunto. Neste período, Singer descobriu que um amigo e colega de classe fazia parte do Partido Comunista. Singer não tinha muita simpatia pelo comunismo, mas conversava com seu amigo e falavam muito sobre política. No momento da redemocratização, o assunto majoritário das rodas de conversa, inclusive das crianças, passou a ser política. A redemocratização pós Estado Novo, pós II Guerra Mundial foi o marco histórico que deu início ao processo de politização de Paul Singer.
Aos 16 anos, Singer foi recrutado por uma organização de jovens judeus: o Dror (que significa andorinha em hebraico, uma metáfora para liberdade). O ano era 1948, ano da fundação de Israel como “Estado Judeu e Democrático”. Israel foi criado depois do término da II Guerra Mundial e, neste período, foi possível compreender as verdadeiras dimensões do holocausto. A família de Singer perdeu todos os parentes que não conseguiram fugir e vários outros que foram alcançados pela guerra.
O Dror era uma organização sionista socialista de jovens que pretendiam viver em kibutz . Foram 4 anos participando ativamente do movimento e – nos últimos dois anos de envolvimento – Singer se tornou um dos líderes do movimento.
A proposta do Dror era preparar jovens para migrar para Israel e viver em kibutz. Não havia adultos no movimento. Os mais velhos tinham entre 18 e 19 anos e os mais jovens tinham mais ou menos 10 anos. Tratava-se de um movimento relativamente grande. Em São Paulo eram em torno de 1.500 jovens distribuídos nos vários bairros da cidade.
O movimento era vinculado ao Partido Trabalhista de São Paulo formado pelos imigrantes judeus, quase todos comerciantes, que se identificavam como os trabalhadores de Sião. Embora não tivesse adultos, o movimento recebia o apoio dos mais velhos que contribuíam com recursos para promover congressos e encontros, mas não tinham influência sobre o movimento. O Dror era essencialmente constituído de jovens que cresceram juntos e guardavam a autonomia do movimento.
Singer diz que a experiência de participação neste movimento foi muito importante para ele. Lembra que Israel mandava enviados para contribuir no processo formativo. Eram jovens também – alguns vinculados ao exército de Israel – que passavam um tempo no Brasil. Um destes enviados se envolveu tão fortemente com o processo que acabou virando “camarada” – como eles costumavam chamar uns aos outros, e teve um papel importante na identidade do movimento: o rapaz com cerca de 20 anos fazia exercícios militares com o coletivo, ensinava canções em hebraico, danças, etc., A contrapartida foi a sua politização, Singer lembra de ser uma agradável convivência e que eles ficaram muito amigos.
Singer atribui parte das descobertas que mais tarde teve sobre a economia solidária à sua relação e envolvimento nesse movimento.
Quando entrou no Dror – não foi só pela perspectiva dos kibutzim, mas também porque eles eram do partido operário de Israel. O movimento era sionista , ou seja nacionalista judeu, mas também tinha sua proposta socialista. Na época, o presidente de Israel – Ben Gurion – era vinculado a este partido e era um dos pioneiros dos kibutzim, ele vivia em kibutz, ou seja, a vanguarda militar e política do país eram pessoas de esquerda e kibutizanos.
Entusiasmado com a proposta, Singer e os demais companheiros de movimento criaram um kibutz artificial em Jundiaí – São Paulo. Compraram uma chácara a fim de preparar as pessoas que fossem migrar depois, assim teriam alguma experiência agrícola e comunitária já no Brasil. Um ano antes de migrar, os jovens sionistas deixavam suas casas e iam viver em Jundiaí. O lugar também servia para acolher acampamentos e retiros de reflexão do movimento.
Singer não era muito sionista, mas era um entusiasta do socialismo e por aí manteve sua identidade com o movimento. Na família de Singer apenas os primos eram sionistas, eles também participavam do movimento. Nesta época, Singer teve uma intensa ideologização socialista por conta própria. Sempre gostou muito de ler e dentre as leituras do jovem Singer estavam Marx, Trotsky e Rosa Luxemburgo.
Em 1950, os jovens mais velhos migraram para Israel e Singer (tinha 18 anos na época) foi eleito secretário geral do movimento – a principal liderança do movimento -, função que exerceu por dois anos, quando resolveu deixar o movimento.
A saída do Dror foi motivada por uma única questão: era chegada a hora de Singer embarcar para Israel. Singer tinha a mãe e o padrasto – os dois relativamente pobres, com uma renda muito limitada e esperavam o momento de o filho ajudá-los na vida.
O kibutz aceitava que os jovens levassem a família. Era normal os jovens imigrantes serem acompanhados dos pais e aqueles que podiam trabalhavam na comunidade, mas ao perguntar a sua mãe se queria ir, ela disse que não. Singer lembra que já esperava aquela resposta pois sua mãe não era contra os judeus, mas tinha suas ressalvas em viver só entre judeus.
Era preciso tomar uma decisão: ou Singer deixava a família e ia para Israel ou ficava com os pais. Diante das percebeu que a luta pelo socialismo, que era o que realmente o interessava, podia ser feita tanto no Brasil quanto em Israel. Outra leitura que o influenciou na decisão de ficar no Brasil foi que a luta antissemitismo, que movia o movimento, era muito mais oportuna se cada um a mobilizasse desde o seu país do que tentar agrupar os judeus todos no mesmo lugar.
Assim, como secretário geral do movimento, Singer chamou uma reunião e anunciou sua decisão alegando que migrar para Israel não é ruim, mas não é o único jeito de se lutar pela sobrevivência dos judeus.
Você tem que lutar contra o nazismo, contra o fascismo, contra a ditadura, etc. e nós estamos em um país importante – cheio de judeus também, e eu vou ficar aqui. Eu vou lutar pelo socialismo no Brasil. (SINGER, 2014a)
Apenas um companheiro acompanhou Paul Singer. Sua decisão não estava em questão, mas por lealdade Singer resolveu sair do movimento expondo claramente seus motivos. Inclusive escreveu uma carta a um dos companheiros que o levou para o movimento – que já havia migrado e até hoje vive em um kibutz em Israel, que retribuiu a carta de forma pouco compreensiva. Apesar do rompimento, Singer mantem a amizade até hoje com muitos dos companheiros da época. Em 1985 teve a oportunidade de ir a Israel e conheceu o kibutz para onde o pessoal do Dror migrou. Foi momento de reencontrar amigos que não via há 30 anos.
Depois de sair do Dror, em 1954, Singer foi naturalizado brasileiro e se vinculou ao Partido Socialista, inclusive, escrevia para o jornal do partido. Tinha uma importante liderança do partido socialista que era judeu, Febus Gikovate – era um médico que tinha participado do Partido Comunista, depois tornou-se trotskista e, finalmente, foi um dos fundadores do partido socialista brasileiro. Foi uma referência política para Singer.

5 – Trabalho como metalúrgico e formação política sindical
Singer começou a trabalhar e ajudar a família quando tinha 16 anos. Começou como auxiliar de escritório. Na época Singer havia acabado o ginásio e passou a cursar eletrotécnica na escola técnica Getúlio Vargas em São Paulo.
Antes disso, Singer trabalhou dando aulas de reforço –despertando sua vocação como professor. Enquanto estava estudando na escola técnica Singer deu aulas para polícia militar de São Paulo que eram candidatos a cabos e sargentos. Tratava-se de um curso noturno o que permitia que Singer estudasse durante o dia e trabalhasse à noite. O estudo de eletrotécnica era praticamente o dia inteiro. Pela manhã aconteciam as aulas teóricas e no período da tarde, oficinas práticas.
O problema é que a oficina não atendia às necessidades da eletrotécnica – era tudo orientado para a mecânica e, neste caso, Singer aprendeu também o ofício da mecânica, mas as peças que construía eram ruins. Nunca repetiu de ano, mas tinha consciência de que seu desempenho no curso técnico não era o melhor.
Quando concluiu o curso técnico, Singer recebeu algumas propostas de emprego. Na época era fácil conseguir emprego – todos buscavam mão de obra qualificada. Em 1953, Singer começou a trabalhar na Industria Atlas de elevadores – a maior fábrica do ramo da América Latina, tinha em torno de 3.500 trabalhadores. Fato curioso é que de todos estes trabalhadores apenas um tinha formação universitária: um engenheiro alemão que veio a ser chefe de Singer. Na Atlas, Singer trabalhou durante um ano no laboratório eletrotécnico.
Assim que aderiu à fábrica, Singer se filiou ao sindicato e ali começou outra vertente política de sua vida: a luta operária. Em 1957 estourou a chamada greve dos 400 mil. Na época, havia uma inflação de vinte e poucos por cento e os sindicatos estavam sobre intervenção – dominados pelo Partido Comunista. Um cenário sui generis! Mas, na sequência emergiu a política anticomunista e o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade, os sindicatos que haviam elegido comunistas tiveram interventores e as assembleias eram acompanhadas por um interventor e por um delegado de polícia do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). No entanto, os sindicalistas não se deixaram intimidar protegidos pelo fato de viverem em tempo de democracia. Naturalmente, com a politização que havia adquirido com suas experiências da vida, logo Singer, com 21 anos, se tornou uma das forças do movimento. Singer lembra que seu destaque se deu porque discutia com os comunistas pois os compreendia como intransigentes e sectários – características que não considerava benéficas para a luta democrática.
Neste período Singer também compreendeu como as diferentes leituras de mundo se encontravam na luta. Seus principais companheiros de luta da greve dos 400 mil eram um operário cristão, bastante politizado e oriundo da pastoral operária, e um anarquista. As reuniões aconteciam na sede dos anarquistas e Singer ficava constrangido pelos amigos cristãos, porque os anarquistas eram anticlericais declarados e por toda a sede havia caricaturas grandes em imagens onde o povo pobre era esmagado por clérigos. Apesar das diferenças, criaram um movimento de orientação sindical.
A greve durou em torno de 3 meses e não havia negociação com o governo. Houve uma adesão total dos operários à greve. Os operários que aderiram à greve eram os chamados operários horistas. Os funcionários que tratavam da burocracia da fábrica – rotulados de “colarinho branco” – eram mensalistas e os “mestres” não faziam greve, mas apoiavam a greve, inclusive contribuíam para o fundo dos grevistas. Singer teve um papel significativo na adesão dos trabalhadores da Atlas na greve, pois eram poucos os filiados no sindicato (3%) e, estes, precisavam contextualizar os demais do que estava acontecendo. Também cumpriu um papel fundamental para o movimento grevista. O estádio de futebol da Móoca era um dos pontos de encontro dos sindicalistas, e Singer e outros companheiros se revezavam no plantão para receber os grevistas e dar espaço para que os mesmos se manifestassem. Além disso, Singer fazia parte do conselho de salário, ou seja, o conselho que negociava em nome do sindicato com o patronato.
A greve foi relativamente vitoriosa naquela altura, os trabalhadores das mais diversas categorias (metalúrgicos, gráficos, vidreiros, marceneiros, tecelões…) obtiveram um aumento através de uma sentença da Justiça do Trabalho, ou seja, os trabalhadores foram julgados pela justiça do trabalho que reconheceu direito ao aumento referente a inflação.
A classe operária saiu vitoriosa! Tratava-se de um momento de aceleração do processo de democratização no Brasil. Antes disso não havia greves muito expressivas (um pouco antes, houve uma greve de bancários) e a greve dos 400 mil teve uma importância significativa para a história.
Terminada a greve, Singer esperava por ser despedido, pois foi o único mensalista da empresa que aderiu á greve ativamente. Mas, para sua surpresa, a Atlas os recebeu novamente e solicitou que os trabalhadores elegessem um conselho dos assalariados para se reunir periodicamente com a direção da fábrica e, assim, facilitar a comunicação entre empregados e empregadores. Feito a eleição (sigilosa), Singer foi o mais votado e junto de outros companheiros passou a representar o “chão de fábrica” frente à direção da empresa. Foi um ano exercendo esta função. No refeitório da fábrica, mal conseguia comer porque sempre tinha um conjunto de operários querendo apresentar suas reivindicações que tinha relação direta com a implantação do taylorismo como modo de produção.
No entanto, as reuniões não estavam resultando como os patrões gostariam, e passados pouco mais de um ano, o tal conselho foi extinto. Os empresários alegaram que as reuniões semanais não estavam contribuindo para aumentar a produtividade e a eficiência do negócio e que os trabalhadores não apresentavam sugestões, apenas críticas e reinvindicações.
Na época, a direção da Atlas estava se relacionando com um novo movimento chamado “Rearmamento Moral”. O Rearmamento Moral é uma ideologia fundada por um pastor luterano americano que viveu grande parte da vida na Inglaterra onde o movimento foi se firmando tendo em vista quatro grandes valores («standarts of Life»): honestidade absoluta (nos negócios), pureza absoluta (nos costumes), altruísmo absoluto, amor absoluto . Na década de 1950 este movimento estava se expandindo para outros continentes e países, inclusive o Brasil. No final da década houve um grande evento do movimento na Suíça e os donos da Atlas não só resolveram participar como levar alguns dos trabalhadores/lideranças de sua empresa como estratégia de afinar as ideologias entre patrões e empregados. Nesta perspectiva, Singer foi um dos convidados para participar do evento representando a empresa. Singer não tinha nenhum interesse no “rearmamento moral”, mas nunca mais havia saído do Brasil depois do refúgio e viu ali uma oportunidade de viajar e conhecer lugares. Foi uma estadia curta, mais ou menos um mês. Singer aproveitou a oportunidade e reencontrou amigos do Dror que viviam na Europa – como um de seus antecessores no movimento que antes de ir para Israel passou por Paris e resolveu ficar – se tornou um premiado cineasta.
Nesta situação, Singer estabeleceu certa intimidade com os patrões que haviam se tornado companheiros de viagem. Mas, com as novas estratégias da empesa e com a extinção do conselho já não tinha mais tanta motivação para continuar no emprego e, por isso, pediu demissão.
Singer lembra deste processo como um grande aprendizado político e social. Era ele cumprindo um papel muito importante na luta de classe. O conselho era uma ferramenta de politização, muitos operários aderiram ao sindicato por conta deste processo.
Na sequência Singer foi trabalhar na Philips – uma grande empresa holandesa e continuou militando no sindicado dos metalúrgicos e no partido socialista. Na Philips trabalhou como eletrotécnico projetando transformadores sobre medida e ficou lá cerca de 1 ano e meio. Neste processo participou de uma greve pelo décimo terceiro salário. Foi uma greve curta, dois ou três dias, e todas as categorias aderiram à paralização que resultou na promulgação de uma lei que garantia o 13º salário a todos os assalariados.
Singer nunca foi demitido, sempre saiu dos empregos por motivação própria. A não ser as situações de aposentadorias compulsória e expulsória.

6 – Primeiro casamento e adesão a universidade
Em 1955, Paul Singer se casou pela primeira vez. Singer tinha 23 anos e Eveline tinha 15 anos e ainda cursava o secundário. Tratava-se de uma moça judia que havia nascido na França e mudado pequena para o Brasil. Eveline era poliglota, falava fluentemente alemão, francês, inglês. Tinha um visível talento linguístico, tanto que mais tarde ministrou aulas de línguas. Eveline era oriunda de uma família também refugiada e bastante politizada. A mãe de Eveline havia conseguido revalidar o diploma de bacharel em direito e advogava no Brasil, o pai era um químico austríaco e tinha um cargo relativamente elevado nas fábricas Matarazzo. Ambos faziam parte do Partido Comunista Austríaco, mas quando chegaram ao Brasil optaram por não se filiar ao Partido Comunista Brasileiro, embora tinham uma forte consciência política. No Brasil, Eveline ingressou no Dror numa época diferente de Paul Singer, mas frequentavam os mesmos espaços. Eveline estava interessada em discutir política e os companheiros do Dror disseram para que procurasse Paul Singer – considerado um antigo membro do movimento que estava no Partido Socialista. Foi assim que Singer e Eveline se conheceram, namoraram e, em 1955, casaram.
Na época, o casal queria avançar com a sua relação e os pais de Eveline entenderam que ela deveria casar para seguir com uma vida conjugal. Singer, de imediato, concordou. Embora entendesse que a companheira era jovem demais para casar, tratava-se de uma questão de honra.
O casamento com Eveline durou entre 3 ou 4 anos e, em fevereiro de 1958, tiveram um filho: André. Quando André nasceu Eveline teve uma forte depressão – talvez uma depressão pós-parto e o casamento não se sustentou. André ficou vivendo com a mãe, mas Singer, procurava ser um pai presente mesmo com a distância. Mais tarde, André passou a viver com o pai.
Singer tinha uma relação muito próxima com os sogros e reconhece que eles tiveram forte influência sobre sua vida. Os sogros sempre o incentivaram a frequentar um curso universitário, no início Singer resistiu à ideia porque entendia que a universidade era muito burguesa. Singer se interessava por economia, mas a economia que se ensinava na Universidade de São Paulo (USP) era a economia neoclássica, contra a qual ele tinha todos os preconceitos possíveis, pois era um marxista fervescente.
Sendo assim, logo depois de casar, Singer buscou um trabalho que lhe permitisse também estudar. Conseguiu um emprego de meio turno em uma entidade pública que fazia a divisão do pagamento do transporte ferroviário entre as diferentes companhias ferroviárias. Mais tarde, em 1956, mesmo com os preconceitos contra a universidade – Singer fez vestibular para economia na USP e entrou na universidade aos 24 anos de idade.
Seduzido pelo ambiente acadêmico, Singer foi mudando sua leitura sobre a universidade. A realidade contrariou todos os seus temores. Como Singer era um exímio conhecedor da economia marxista – que havia estudado por conta própria, dialogava com os professores – que pouco conheciam de Marx – de forma diferenciada que os demais colegas. O professor que mais conhecia as leituras de Marx era Delfim Netto – que na época lecionava estatística para Singer. Delfim adquiriu respeito intelectual e admiração de Paul Singer e até os dias de hoje eles mantêm uma relação de amizade. Singer teve bons professores de economia que, inclusive, o ajudaram estudar Keynes que, segundo Singer, não é simples. Os livros do Keynes são pequenos perto do O Capital, mas de difícil compreensão.
Durante a faculdade, Singer teve seu primeiro trabalho acadêmico publicado. Motivado pelo professor Dorival Teixeira Vieira, Singer estudou a recessão que afetou a economia dos Estados Unidos, em 1957 e 1958, e se dedicou a refletir sobre as proposições de William FELLNER (Trends and Cycles in Economic Activity, New York: 1956) que resultou no trabalho Considerações sobre a situação econômica dos Estados Unidos publicado no nº 103, volume XXXV da Revista Anhembi.
Três anos depois, em 1959, Singer se formou e foi contemplado com um prêmio referente ao melhor aluno da turma de formandos.
Durante o curso universitário, Singer passou no primeiro processo seletivo da carreira e começou a trabalhar lecionando aulas de geografia para um curso preparatório para o vestibular que era sustentado pelo Grêmio Estudantil. Singer também se envolveu com o movimento estudantil, não em uma condição de liderança, mas em uma espécie de assessor. O movimento estudantil era extremamente politizado, de esquerda e Singer tinha uma estreita relação com os dirigentes das entidades estudantis, como a União Nacional de Estudantes (UNE) entre outras.

7 – Vida pós formado, segundo casamento e início da carreira acadêmica
Logo que Singer se formou, recebeu proposta para trabalhar em um escritório de pesquisa de opinião pública e mercado. Na verdade, o emprego foi oferecido para Eveline, mas na época o bebê estava quase nascendo e ela não aceitou. Foi então que ofereceram a vaga para Singer que, interessado na proposta do trabalho, aceitou. André nasceu em 1958 e logo depois (1959) o casal se separou.
No escritório de pesquisa, Singer trabalhava apenas pela manhã. Ele era responsável pela análise dos dados. A pessoa que era responsável pelo tratamento dos dados em quadros, tabelas e gráficos trabalhava no período da tarde e, por isso, se comunicavam por bilhetes. A pessoa em questão era uma socióloga chamada Melanie, que mais tarde veio se tornar esposa e companheira de vida de Paul Singer.
Durante um bom tempo Singer e Melanie apenas se conheciam por bilhetes e pelas impressões que seus colegas de trabalho – que os conheciam pessoalmente – tinham sobre eles. De toda forma, já existia uma admiração mutua de um pelo trabalho do outro e, em novembro de 1959, se conheceram pessoalmente, começaram a namorar e, três anos depois, em 1962, se casaram e viveram juntos até a morte de Melanie – em decorrência de um câncer de pâncreas– em janeiro de 2012.
Com Melanie, Singer teve duas filhas: Suzana (1965) e Helena (1967). O casal criou os três filhos (André não era filho biológico de Melanie, mas viveu com ela grande parte da vida e foi criado como se fosse) e viveram com grande cumplicidade.
Curiosamente, toda a família de Singer teve formação em sociologia: a primeira esposa, a segunda esposa e os três filhos. André fez ciências sociais e jornalismo e é professor da USP. André foi o primeiro porta voz do presidente Luís Inácio Lula da Silva – vulgo Lula; Suzana iniciou cursando ciências sociais e depois fez jornalismo – profissão que atua até hoje; e Helena fez Ciência Sociais e trabalha com educação e direitos humanos.
A família de Singer, esposa e filhos, de certa forma seguiu uma orientação de esquerda. Mas o curioso é que Melanie não seguiu os passos políticos e partidários do marido. Em certa altura ambos trabalhavam no CEBRAP – que se desdobrou em várias vertentes teóricas e políticas (como é possível ver mais adiante). Melanie se identificou com o discurso dos colegas que iam pela linha da socialdemocracia e, assim, estabeleceu uma relação maior com o PSDB – partido de Fernando Henrique Cardoso. A divergência política sempre foi salutar no âmbito da família Singer.
Terminado o curso de economia, deu-se início a reconhecida carreira acadêmica de Paul Singer. Em 1960, quando Singer tinha 28 anos, foi convidado pelo professor Mário Vagner Vieira da Cunha para ser seu assistente na USP na cadeira de “Ciências de Administração”.
Além de Singer, Mário Cunha também convidou Lenina Pomeranz – judia, polonesa e militante do Partido Comunista – que havia sido colega de classe de Paul Singer. Singer lembra da colega com muito carinho, lembra de uma colega muito generosa – são amigos até hoje.
Neste período, Singer lecionava “Estrutura das organizações econômicas”, cujo programa versava sobre economia agrícola. Dentre os trabalhos teóricos nesta área destacam-se: “Agricultura e Desenvolvimento Econômico” publicado em 1961 na Revista Brasileira de Estudos Políticos, nº 12; e “Estudo da Agricultura na Bacia do Paraná-Uruguai” publicado em 1963 na Revista Brasileira de Ciências Sociais, nº 2.
Entre 1961 e 1963, Singer passou a fazer cursos de pós-graduação na Faculdade de Economia e Administração FEA – USP dedicando-se mais ao tema de desenvolvimento econômico. Sendo assim, realizou os seguintes cursos: “Teoria do Desenvolvimento” ministrado pelo professor Antônio Delfim Netto em 1961; “Política Econômica” ministrado pelo professor José Francisco Camargo em 1962; e “Planejamento Governamental” também ministrado pelo Delfim Netto em 1963. Nesta época, Singer produziu vários textos e ensaios que mais tarde, em 1968, foram reunidos no livro Desenvolvimento e Crise. Entre eles destaca-se: Conjuntura e Desenvolvimento, também publicado em 1963 na Revista de Administração; Política Econômica do Desenvolvimento; e Conceituação de Desenvolvimento.
Outras publicações que se destacaram neste início de vida docente de Paul Singer são: Análise Crítica do Plano Trienal oriundo de uma demanda da União Nacional de Estudantes (UNE) que havia pedido para que Singer apreciasse o Plano Trienal elaborado por Celso Furtado para o Governo João Goulart em 1963. Este trabalho foi publicado no mesmo ano pela UNE; Ciclos de conjunturas em Economias Subdesenvolvidas, publicado em 1965 na Revista Civilização Brasileira, nº 2; em 1965 elabora o capítulo final do livro Desenvolvimento e Crise intitulado Implicações Políticas da Crise Econômica.
A carreira como professor assistente durou quase uma década, quando foi interrompida em 1969 em decorrência do golpe militar.

8 – O grupo do O Capital
No período de transição do Singer aluno para o Singer professor, houve um episódio importante na vida política da USP da qual Singer participou ativamente. Criou-se o famoso Grupo do O Capital – um grupo de estudos sobre a obra marxista que envolveu importantes referências intelectuais e políticas do Brasil e que durou entre 1958 – 1965.
Em 1958, Singer estava no terceiro ano da universidade e mantinha uma atividade política intensa, quando recebeu o convite de Arthur Giannotti para participar de uma reunião que deu início ao grupo do O Capital na USP.
Giannotti é professor de filosofia, na época era professor assistente e tinha passado um longo período de estudos na França. Singer lembra que ele falava português com sotaque em francês – curiosamente. Giannotti voltou da França convencido de que O Capital não era apenas um manual de economia e entendia que a obra de Marx devia ser estudada pelas diferentes disciplinas e, foi então, que idealizou o grupo de estudo multidisciplinar que fez história. Singer alega que o grupo do O Capital passou a tratar a economia como disciplina dentro de uma coisa maior: a economia política.
Além de Singer (economia) e Giannotti (filosofia), o grupo era composto por nomes como Fernando Henrique Cardoso (sociologia), Ruth Cardoso (antropologia), Fernando Antônio Novais (História), Juarez Brandão Lopez (sociologia), Sebastião Advícula da Cunha (economista), Roberto Schwarz (filosofia), Otávio Ianni (sociologia), Francisco Correia Weffort (ciência política), Michael Löwy (sociologia) e Gabriel Bolaffi (sociologia), entre outros. Era um grupo entre 10 e 15 pessoas. Depois de alguns meses o grupo diminuiu e quem teve que sair saiu e quem pode ficar, ficou até o fim. Eram reuniões quinzenais que aconteciam no espaço privado, sendo realizada aos sábados cada vez na casa de um dos participantes que, apesar da disciplina com as leituras e com a discussão, socializavam de forma informal. O rodizio dos espaços de realização do grupo se dava por ordem alfabética. Singer lembra que todos, sobretudo as mulheres, se esforçavam muito para criar ambientes agradáveis para reflexão. Em cada reunião o grupo discutia um capítulo do O Capital onde todos liam – cada um lia em uma língua diferente – e um apresentava (esta distribuição também era por ordem alfabética). A proposta é que todos participassem por igual.
A proposta do grupo era também contrapor as posições de dois grupos do Brasil que dominavam a reflexão de esquerda no país. O primeiro grupo era o Partido Comunista do Brasil (PCB) que se pautava por um marxismo vulgar; e as ideias nacionalistas do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) que fundamentava o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek. Para tanto o grupo não estudou apenas Marx, mas também vários outros nomes das ciências sociais e econômicas. No entanto, o principal intuito do grupo era fazer uma Economia Política Moderna tendo em vista o pensamento teórico, econômico, sociológico e histórico.
Singer lia O Capital em alemão – no original. Em certa altura Singer observou que alguns falavam de um Capital que ele desconhecia. Apareciam questões em algumas versões que não estavam no original. Mais tarde, se descobriu que a versão em francês do O Capital teve observações inéditas do próprio Marx. Quando O Capital foi traduzido para o francês, Marx ainda era vivo e o tradutor francês resolveu oferecer sua versão para leitura e avaliação de Marx que acabou por alterar partes do conteúdo mesmo em francês. Assim, é sabido que a edição francesa do O Capital é maior e mais completa do que a alemã.
Foi um período de grande aprendizagem para Singer, não só pelo estudo da obra marxista em si, mas por conhecer a base de reflexão de cada uma das diferentes disciplinas, que tinham olhares diferentes do mesmo texto. Foi aí que Paul Singer se aproximou muito das ciências sociais, principalmente filosofia e sociologia.
Em entrevista a Guido Mantega e José Márcio Rego, Singer disse que o
Grupo do Capital deu pelo menos duas grandes contribuições para as Ciências Humanas no Brasil. Em primeiro lugar, permitiu o entendimento de que as ciências humanas possuem uma série de pontos de contato, pois a divisão disciplinar e profissional é alienante, porque não se consegue entender economia sem os fatores sociais e políticos. A divisão social do trabalho, de acordo com o modelo americano, criou as profissões de economista, sociólogo ou cientista político, isoladas em suas áreas de competência por altos muros. Então o grupo de O Capital ajudou-o a entender que era preciso derrubar esses muros. Em segundo lugar, esse grupo permitiu resgatar o pensamento original de Marx, desvirtuado pela longa sequência de interpretes. Ou seja, a rigor não se lia Marx. Liam-se os divulgadores do marxismo, já no meio de enormes polêmicas e distorções que havia entre a Segunda Internacional, tida como reformista, a terceira, tida como leninista e depois stalinista e a Quarta Internacional, trotskista. Segundo Singer, ‘após toda uma série de montagens e remontagens, nós chegamos ao original. Nós resgatamos aquilo que estava na origem destas polêmicas’ (MANTEGA & REGO, 1999).
Com o golpe militar a continuidade do grupo ficou comprometida. Os intelectuais que participavam do grupo também tinham envolvimento político, embora Singer se destacasse neste quesito tendo em vista toda sua história militante e participação em partido político. O grupo do O Capital não era marxista, embora tivessem muitos – como Singer – que se reconheciam como marxistas. Não era uma condição ser marxista para entrar no grupo, mas era um grupo de esquerda e na época, pelo menos no círculo da USP, a esquerda era marxista.
Fernando Henrique Cardoso (FHC) ficou visado e recebeu uma ordem de prisão – a partir de 1968 o regime político nacional assumiu uma face mais feroz e as ameaças passaram a amedrontar. Antes do grupo do O Capital, Fernando Henrique e o Otavio Ianni faziam parte do Partido Comunista, mas se afastaram depois da divulgação do famoso Relatório Khrushchov que denunciou a ditadura do Stalin e foi uma enorme crise no Partido Comunista, pois comprometia as ideologias comunistas e militantes – do mundo inteiro – deixaram o partido.
FHC corria perigo, e precisou se exilar. FHC e Ruth foram viver no Chile e as reuniões passaram a ser cada vez menos constantes até que terminaram, mais ou menos, um ano depois da partida dos colegas para o exílio. Segundo Singer, Fernando Henrique sempre desempenhou um papel político e se relacionava com o poder de forma própria seja nos espaços formais – como a universidade, seja nos espaços informais – como o grupo do O Capital. Não é por acaso que ele teve uma carreira política brilhante. É natural que sua saída do Brasil tenha influenciado a continuidade do grupo.

9 – Transições na universidade e aposentadoria compulsória
Como já dito, Singer era professor assistente da USP vinculado ao professor catedrático Mário Vagner Vieira da Cunha que já estava em tempo para se aposentar, mas não o fazia porque estava esperando os assistentes completarem doutoramento para deixar a cadeira. Na época não havia mestrado e Singer ainda não havia começado o doutorado e Lenina estava na Polônia. A conjuntura não permitia que os assistentes assumissem a cadeira de Mário Vagner e, assim, ele desistiu de esperar e resolveu se aposentar. Com a aposentadoria do catedrático, Singer precisou se demitir.
Fora da USP, Singer voltou a procurar emprego no mercado de trabalho e empregou-se como economista na empresa Hidroservice (firma de planejamento e projetos hídricos), onde trabalhou por alguns anos e foi chefe do departamento de planeamento.
Neste período, Singer também passou a lecionar cursos de teoria econômica e história do pensamento econômico em duas faculdades que hoje fazem parte da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP): Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro e Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara.
Em 1963, recebeu o convite para trabalhar com Florestan Fernandes – um sociólogo, intelectual e ativista muito respeitado e admirado por Paul Singer. Florestan tinha um centro de estudos de sociologia do trabalho que tinha recursos para a realização de pesquisas. O Florestan queria estudar a desigualdade regional no Brasil a partir de um ponto de vista não econômico, ou seja, um estudo que balizasse também elementos considerados objetos das ciências sociais: fatores culturais, sociais, raciais, etc., mas, para isso, entendia que precisava de uma análise econômica, para concentrar a reflexão nos outros fatores.
Para a realização desta pesquisa, Florestan organizou um corpus de pesquisa tendo em vista 5 cidades brasileiras: São Paulo, Blumenau, Porto Alegre, Recife e Belo Horizonte; e precisava de alguém que fizesse um estudo do desenvolvimento econômico destas cidades. Na época, Fernando Henrique Cardoso e Otávio Ianni eram professores assistentes de Florestan e como ambos conheciam Singer do grupo do O Capital, o indicaram para a realização da pesquisa.
Contratado por Florestan Fernandes, Singer viveu uma importante experiência de pesquisa de campo vinculada à cadeira de sociologia da faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Foram quase três anos em que visitou cada uma das cidades, conheceu a vida econômica, social e cultural destas, entrevistou pessoas com os mais diferentes perfis e escreveu uma série de relatórios, um sobre cada cidade. No estudo, Singer buscava analisar porque uns territórios se desenvolveram mais do que outros e, assim, traçou uma história econômica de cada uma das cidades pesquisadas.
Em 1965, Singer estava entregando os últimos relatórios – referentes à cidade de São Paulo – Florestan o chamou para uma reunião e disse que o trabalho realizado daria uma tese de doutoramento em sociologia e que se Singer quisesse aproveitar o trabalho, ele poderia orientá-lo. Assim, Singer reorganizou o trabalho em formato de tese e, como já havia feito alguns cursos de pós-graduação, poucos meses depois, defendeu a tese intitulada Desenvolvimento econômico e evolução urbana.
Em 1966 a professora Elza Berquó estava planejando o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional – Cedip. Elza era professora catedrática da USP vinculada à Faculdade de Higiene e Saúde Pública. Tratava-se de um centro de estudos demográficos e a Elza queria uma equipe multidisciplinar e, neste caso, precisava de um economista. Na época, a professora pediu indicação ao departamento do Florestan Fernandes e todos recomendaram o nome de Paul Singer. Desta forma, Singer recebeu um convite para voltar para a universidade como professor vinculado ao CEDIP e assim o fez – abandonando as outras atividades profissionais e acadêmicas.
A professora Elza Berquó era bastante respeitada e relacionada e, na época, conseguiu, via Organização Mundial da Saúde, algumas bolsas para sua equipe estudar nos Estados Unidos da América (EUA). Assim, entre 1966 e 1967, Singer mudou-se com a família (sua esposa Melanie, que ali engravidaria da filha caçula – Helena, e os filhos André e Suzana que tinham 8 e 1 anos respectivamente) para aquele país onde realizou uma especialização em demografia na universidade de Princeton.
Nos EUA Singer cursou demografia no Office of Population Research Princeton University com o professor Ansley Coale um dos mais destacados investigadores no campo da demografia formal e aplicada. Tratava-se de um intelectual de orientação malthusiana que também se interessava por desenvolvimento económico. Além da demografia, Singer aproveitou a oportunidade e se organizou para também fazer um curso sobre desenvolvimento econômico ministrado pelo professor Frederik Harbison no Woodrow Wilson Center também na Universidade de Princeton. Sua monografia de conclusão de curso na demografia, de certa forma, refletiu os interesses dos dois cursos. Seu trabalho tratou de uma análise sobre o efeito do crescimento populacional sobre o desenvolvimento e descobriu que, num país como o Brasil, o crescimento populacional era positivo, contrariando todas as teses do seu professor malthusiano.
Mesmo contrapondo as pesquisas de Princeton, o trabalho de Singer foi reconhecido e ganhou repercussão mundial, inclusive, foi convidado para participar de alguns eventos europeus a fim de discutir e contrapor as teses de Malthus. Singer despertou interesse não só por ser antimalthusiano, mas também por falar olhando para o sul: os pesquisadores do Norte queriam compreender a representação que o Sul tinha sobre a sociedade e a economia.
Ao voltar para o Brasil, Singer retomou seu trabalho na USP com a professora Elza Berquó e aproveitou o trabalho realizado em Princeton para se tornar livre docente com a tese intitulada Dinâmica Populacional e Desenvolvimento que foi publicada mais tarde em 1970 em português no Brasil e em 1971 em espanhol no México.
Em 1968, Paul Singer participou ativamente de um processo de formação que teve profundo impacto na produção do conhecimento em torno das questões econômicas. O ano de 1968 passava por momentos históricos importantes no mundo inteiro. Uma série de movimentos de resistências ao status quo ganharam a cena política em vários países, entre eles destaca-se a revolução cultural na China, maio de 68 em Paris, a Primavera de Praga, os levantes estudantis no México, Argentina e Brasil.
Na época, os estudantes e professores se mobilizaram em torno de uma almejada reforma universitária e deram início a um processo de greve. Foi nesta ocasião que Singer e demais professores fundaram a Associação Paulista de Professores de Ensino Superior (APES) da qual Singer foi secretário geral e Cesarino Júnior era o presidente. O movimento estudantil brasileiro também fazia suas articulações e se afirmava com uma força significativa. Assim, os estudantes organizavam várias atividades tanto para resistir à lógica dominante quanto para fortalecer a formação como estratégia política de qualificação de quadros. Com esta perspectiva, os estudantes do Centro Acadêmico da Faculdade de Filosofia da USP convidaram o professor Singer para ministrar um curso de economia. O curso teve uma enorme adesão e teve início em um auditório da Faculdade de Ciências Econômicas. No entanto, tratava-se de um período muito tenso, foi o período que antecedeu o Ato Institucional nº 5 , e o diretor da Faculdade de Econômica julgava que a continuidade do curso nas dependências da universidade evidenciava certo perigo. Desta forma, os alunos começaram a procurar outro local que comportasse todos os interessados no curso e, assim, conseguiram o espaço do Teatro Arena, onde as aulas aconteciam aos sábados pela manhã – período em que o teatro estava livre.
As aulas de economia de Singer reuniram centenas de pessoas. O professor ficava no meio da arena e as pessoas todas ao redor. Singer lembra que a logística do teatro não permitia que ele enxergasse o público, parecia que ele estava falando para ninguém, no entanto o espaço estava lotado.
Foram 12 aulas muito especiais, Singer aproveitou a oportunidade para mostrar como a ciência econômica era dual: inspirada ora em Marx e ora em Keynes e os neoclássicos. O curso teve uma grande repercussão. Os estudantes gravaram as aulas e depois submeteram as transcrições para a revisão de Singer. Em certa altura, Singer soube que o material oriundo das aulas estava sendo reproduzido em todo o Brasil e que era uma importante ferramenta pedagógica. Assim, 7 anos depois, Singer resolveu reunir o material em um livro. No entanto das 12 aulas, 2 haviam sido confiscadas pelo governo militar e Singer precisou refazê-las para completar a obra. Assim feito, em 1975 foi publicado o livro Curso de Introdução à economia política, que se tornou uma importante referência para a organização do ensino de economia no Brasil, ultrapassando a vigésima edição.
Na sequência deste processo, a carreira acadêmica e docente de Paul Singer foi interrompida pelo AI5 quando foi aposentado compulsoriamente, em 1969. Nesta época o regime enrijeceu e fez uma “limpa” nas universidades. Os professores mais conhecidos, mais respeitados, com envergadura política de esquerda foram afastados e proibidos oficialmente de trabalhar em qualquer instituição de ensino oficial, e – nesta elite – estavam Paul Singer e sua catedrática Elza Berquó. Praticamente todos os envolvidos no grupo do O Capital foram aposentados de uma única vez (alguns poucos foram poupados) numa única publicação oficial e sem nenhuma explicação sobre os critérios para a demissão. Singer e os demais não ficaram surpresos, de certa forma estavam esperando que alguma represália fosse acontecer e começaram a discutir alternativas futuras: o que fazer? Exílio? Lecionar em outros países? Tentar criar condições para ficar no Brasil?

10 – A formação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP)
Como a maior parte do Grupo do O Capital era comprometida politicamente, ir embora do Brasil era a alternativa que menos agradava e, por isso, o coletivo começou a pensar uma alternativa para se manter no Brasil e continuar o trabalho multidisciplinar vinculado com o estudo da realidade social e política. Foi então, que em 1969, foi criado o CEBRAP , com apoio da fundação FORD que estava financiando pesquisas em andamento na USP, que seria reconhecido como um centro de referência das ciências sociais do Brasil.
O CEBRAP compreendia a retomada do grupo do O Capital (4 anos depois da dissolução do mesmo) – a equipe era fundamentalmente a mesma acrescida de vários outros nomes como Elza Berquió, Chico de Oliveira, Cândido Procópio Ferreira, Carlos Estevão Martins, Frederico Mazzuchelli, Bolivar Lamounier, Geraldo Muller e Guido Mantega. Tratava de um espaço que envolvia profissionais de várias áreas do conhecimento e que se posicionavam contra o regime ditatorial militar. No momento histórico mais obscuro, o CEBRAP realizava suas atividades sem muita exposição, mas com envolvimento de seus membros na luta ideológica e acabou por se tornar um importante espaço de resistência à ditadura.
Para garantir um cotidiano de pouca exposição, o CEBRAP usou de duas estratégias principais: os recursos eram captados através de estudos de planejamento para empresas onde os ex alunos trabalhavam, ou seja, nada que viesse incomodar o regime político; e investiram numa formação interna. Os membros do CEBRAP estavam convencidos que a proposta multidisciplinar era a estratégia político pedagógica mais acertada. A experiência que o grupo do O Capital permitiu, onde todos aprendiam alguma coisa da ciência do outro, foi fundamental para a dinâmica cotidiana do CEBRAP. Sendo assim, o grupo resolveu realizar cursos internos onde uns davam aulas para os outros. Singer dava aulas sobre a economia em Keynes e Marx. Também preparou um curso (que mais tarde lecionaria em Berlin quando foi professor visitante) sobre a teoria do emprego e marginalização. Tratava-se de uma reflexão para distinguir as diferenças entre desemprego e pessoas que jamais seriam exploradas pelo trabalho. Segundo Singer, mais do que a exploração do trabalho havia uma exclusão social.
Os cursos internos eram elaborações de reflexões que iriam ser melhor desenvolvidas em projetos posteriores. Destes cursos surgiram os famosos “mesões” que eram espaços de discussão dos textos que não estavam inteiramente prontos ou não publicados. Os mesões refletiam muitos contrastes de opinião e posições. Os mesões eram compostos por importantes quadros da inteligência brasileira. Além dos membros do CEBRAP, também participavam dos mesões alguns convidados como: Maria Conceição Tavares, Pedro Malan, Celso Furtado (quando não estava na França) entre outros.
Apesar das diferenças teóricas e políticas, Singer lembra que as pessoas eram generosas, ouviam atentamente a posição do outro, mas se posicionavam sem grandes cerimônias. Singer entende os “mesões” como um enorme privilégio e uma excelente experiência intelectual. As críticas – muitas vezes duras – eram sempre bem-vindas! Os “mesões” foram grandes estimulo e influência na produção e trabalho desenvolvido por Singer.
Um exemplo da diversidade teórica dentro do CEBRAP eram os trabalhos de Paul Singer e Chico de Oliveira. Apesar da cumplicidade política, Singer e Chico tinham leituras dispares oriundas de histórias e vivências diferentes. Singer afirma que não se trata de divergência e sim diversidade. Fato é que dificilmente trabalhavam juntos, ou o Chico pegava determinado trabalho ou Singer o pegava.
Em 1972 houve um “mesão” sobre a reavaliação do milagre econômico no Chile e a reflexão sobre a conjuntura econômica brasileira pelo angulo do milagre. A partir desta reflexão tanto Singer como Chico foram motivados por Maria da Conceição Tavares e José Serra a escrever sobre o milagre econômico. Ambos escreveram textos muito importantes que se tornaram referências teóricas. Chico escreveu a Crítica da razão dualista e Singer escreveu A crise do milagre.
10.1 – Aproximação do CEBRAP com o Movimento Democrático Brasileiro (MDB)
O CEBRAP fez o primeiro programa político do MDB. Em 1974 houve uma eleição presidencial indireta, mas que teve campanha política. Ulysses Guimarães saiu como candidato do partido, mas Singer e os companheiros do CEBRAP não acreditavam na oposição do MDB à ARENA (Aliança Renovadora Nacional – ARENA – era o outro partido político brasileiro da época que tinha como finalidade dar sustentação ao governo militar). Na leitura do CEBRAP eram partidos semelhantes. Depois percebeu-se que havia diferenças importantes.
A aproximação do CEBRAP com o MDB ocorreu por interlocução do Singer. Na época havia uma sobrinha do então Deputado do MDB – João Pacheco Chaves (fazendeiro no interior de São Paulo) que estava vinculada a Faculdade de Filosofia da USP e está sobrinha – chamada Ana – procurou Singer e perguntou se ele poderia receber os líderes do MDB para conversar. Sendo assim, Singer recebeu em sua casa João Pacheco Chaves e Ulysses Guimarães que queriam se aproximar do Singer e amigos a fim de criar um programa político para o MDB com uma visão político ideológico. Assim, Singer os apresentou para os colegas do CEBRAP. FHC e Ulysses ficaram muito próximos e, por via de FHC, o CEBRAP fez o programa de governo do MDB.
10.2 – Perseguição política – Operação Bandeirantes
Ainda em 1974, o CEBRAP sofreu represália e perseguição política por parte da Operação Bandeirantes, vulgo OBAN.
O CEBRAP ficou visado pela OBAN quando esta interceptou o envio de material acadêmico clandestino para a Inglaterra. Tratava-se da tese de doutorado de Regis de Castro Andrade. Por este motivo Paul Singer e Vinícius Caldeira Brant foram presos. Singer lembra que foi uma prisão curta, mas bastante difícil, pois lembra de ouvir Vinícius ser torturado durante toda a noite. Singer foi apenas interrogado, mas não foi torturado. Também não sabe o motivo pelo qual foi poupado e Vinícius não.
Ficaram presos durante uma semana em celas isoladas e sem comunicação. Houve todo um movimento para libertá-los e conseguiu-se uma determinação superior para liberá-los. No entanto, eles foram soltos dias depois da ordem de soltura o que gerou um mal-estar familiar, pois todos achavam que eles estariam mortos já que não haviam voltado para casa. Por conta desta situação, a esposa de Singer, Melanie, se expos muito e não sabem como ela ficou ilesa na ocasião.
10.3 – A tradução do O Capital
No âmbito do CEBRAP, Singer recebeu o convite para traduzir O Capital para a versão portuguesa e assim o fez. Tratou-se de um trabalho que demorou mais ou menos quatro anos e foi muito bem remunerado, parte do apartamento onde a família de Singer viveu e onde ele mora até hoje foi paga com honorários oriundos deste trabalho.
Singer não foi o primeiro tradutor do O Capital para o português. Na ocasião, quando a editora Abril fez o convite, Singer alegou que já havia uma tradução de O Capital, mas parece que esta tinha muitas falhas e se fazia necessária uma tradução mais fidedigna, pois os especialistas percebiam as diferenças.
Desta forma, Singer coordenou uma força tarefa para traduzir ao português um dos maiores clássicos do mundo. Tratava-se de uma equipe de três pessoas: dois especialistas em letras e Paul Singer que era economista, estudioso de Marx e native speaker em alemão. Os especialistas em letras traduziam o texto do alemão para o português de forma literal e Singer fazia a revisão tendo em vista o conteúdo e raciocínio do autor.
No entanto, o trabalho não ficou a contento de Paul Singer, pois por motivos pessoais um dos dois especialistas que trabalhavam na tradução atrasou muito o trabalho o que também atrasou o trabalho de revisão. Pois a tradução atrasada era referente aos primeiros capítulos do texto e não fazia sentido Singer fazer a revisão de trás para frente. Em certo momento, a editora resolveu publicar o material que faltava sem a revisão final de Singer.
Neste caso, Singer teve envolvimento e responsabilidade direta com a tradução dos volumes 1 – sobre o processo de produção do capital e o volume 2 – o processo de circulação do capital, mas o volume 3 – sobre o processo global da produção capitalista, não passou pela revisão de Singer.
O Capital foi distribuído às bancas pela coleção Os economistas, da Editora Abril, em 1983 – ano do centenário de morte de Karl Marx. As datas, Singer memorizou tendo como marco uma coincidência entre os economistas clássicos: os anos de morte e nascimento de Marx e Keynes, pois Marx nasceu em 1818 e morreu, com 65 anos, em 1883 – ano do nascimento do Keynes.
Na época a editora Abril foi dividida e criou-se a editora Abril Cultural que estabeleceu uma parceria com o CEBRAP para a realização de várias publicações. Além do O Capital, o CEBRAP organizou grande parte dos textos da coleção Os Pensadores e também elaborou a Enciclopédia Abril. Paul Singer participou e organizou vários volumes dos pensadores, dentre eles, Rosa Luxemburgo.
10.4 Publicações via CEBRAP
Dentre as publicações de Paul Singer no âmbito das atividades do CEBRAP, além do O Capital e da coleção Os Pensadores, destacam-se:
– Nível de Renda e Fecundidade oriundo da Pesquisa sobre Reprodução Humana no Distrito de São Paulo realizada com Elza Berquó e publicada em 1977 em um livro organizado por Elza Bequó intitulado A Fecundidade em São Paulo: Características Demográficas, Biológicas e Sócio-Econômicas;
– Estudos sobre a População Brasileira oriundo de um estudo encomendado pelo CICRED (Comité International de Coopération dans les Recherches Nationales en Démographie). Este trabalho foi publicado em 1974 nos seguintes periódicos: em português no Caderno 20 do CEBRAP; em francês no livro Implications Économiques et Sociales de l’Évolution de la Population Brésilienne et de la Politique Démographique; em espanhol na Revista Latino-Americana de Demografia.
– Elementos para uma Teoria do Emprego Aplicável a Países Não-Desenvolvidos, publicada em 1972 no caderno CEBRAP nº 18 e em espanhol foi publicada em 1974 pela Universidade Católica do Chile;
– Emprego, Produção e Reprodução da Força de Trabalho publicado no livro do mesmo autor Economia Política do trabalho.
– Força de Trabalho e Emprego no Brasil: 1920 – 1969, publicado em 1970 no caderno 3 do CEBRAP;
– Em colaboração com Felícia Madeira, Pau Singer publicou em 1975 no Caderno 13 do CEBRAP o trabalho intitulado Estrutura do Emprego e Trabalho Feminino no Brasil: 1920-1970.
– Em 1978 publicou no livro Previnir e Curar: o controle social através dos serviços de saúde os resultados da pesquisa sobre os serviços de saúde realizada em parceria com Oswaldo Campos e Elizabeth de Oliveira.
– A economia dos serviços, publicada em 1979 no caderno CEBRAP nº 24

11 – Formação do Partido dos Trabalhadores (PT)
Quando o general Ernesto Geisel assumiu o poder percebeu que era necessário um abrandamento na repressão impressa pelo regime militar e iniciou uma abertura política de forma gradual em 1974 e terminou com a Constituição de 1988.
Em 1979, o Presidente João Batista Figueiredo promulgou a lei de anistia o que permitiu que Singer voltasse a trabalhar na universidade onde permaneceu até completar 70 anos, quando saiu por via da aposentadoria compulsória. Dos membros do grupo do O Capital, apenas Singer e Gianotti optaram em voltar para a universidade. Otávio Ianni, Florestan Fernandes, FHC, entre outros, não aceitaram o retorno para a USP.
Durante o período do golpe militar, Singer estava envolvido com o CEBRAP. O período pós golpe permite um processo de redemocratização que foi muito importante para a sociedade brasileira e para a vida dos militantes políticos.
Com a abertura política e a volta dos exilados, renovaram-se as esperanças em abolir o bipartidarismo e houve várias iniciativas de formar um partido socialista. Embora a esquerda estivesse reprimida por 21 anos, havia força política e anseio por mudança no país. Os jovens, os trabalhadores, a intelectualidade, os artistas compunham uma massa de descontentes que estava pronta para articular uma oposição política partidária.
Dentre as iniciativas, houve um grupo composto pelos remanescentes do antigo PSB (entre eles Paul Singer, Febus Gikovate, Antônio Costa Correa e Perseu Abramo), outros militantes políticos (como Almino Afonso e Plínio de Arruda Sampaio) bem como alguns intelectuais do CEBRAP (como Chico de Oliveira, FHC, Francisco Weffort, José Álvaro Moysés e Vinícius Caldeira Brant), e também um grupo composto pelos expoentes do novo sindicalismo (Lula, Jacó Bitar, Olívio Dutra e muitos outros).
Aconteceram muitas reuniões paralelas e algumas em busca de convergência. Numa destas reuniões de convergência entre os diferentes coletivos, houve um divisor de aguas que até hoje reflete na formação política brasileira.
Um bom número, a começar por Lula, manifestou-se pela imediata constituição de um partido dos trabalhadores, como agremiação de classe, com bandeiras próprias, sem subordinação a alianças com representantes de classes capitalistas. Fernando Henrique e Almino Afonso defenderam a posição de que, apesar da abertura política, o regime militar continuava no poder e antes que ele fosse derrubado a frente única de resistência, representada pelo MDB (depois PMDB), não deveria ser rompida. Criar um partido de esquerda independente seria, naquele momento, fazer o jogo do regime, que abriu a possibilidade de formar mais partidos exatamente com o objetivo de dividir, e assim enfraquecer, a oposição. (SINGER, 2005)
A proposta dos trabalhadores expoentes do novo sindicalismo tinha uma base social enorme e Singer entendia como um contrassenso constituir um partido de intelectuais enquanto havia uma proposta dos trabalhadores que dialogava perfeitamente com o que se esperava: um partido de esquerda, democrático e não comunista.
Desta forma, Singer e aqueles que almejavam fundar um partido socialista (entres eles Weffort, Plínio de Arruda Sampaio, Febus Gikovate, Perseu Abramo, Chico de Oliveira e Vinícius Brant) aderiram ao projeto do Partido dos Trabalhadores (PT), os demais seguiram por outros caminhos.
Segundo Singer, a base trabalhadora acolheu bem a base intelectual. Foi um processo de diálogo e de troca de saberes. Singer tinha a vantagem de também ter sido líder sindical, e era bem conhecido, mas, em sua leitura, não há ou houve dentro do PT uma clivagem entre intelectuais de um lado e trabalhadores do outro. Singer recorda que intelectuais como Marilena Chauí e muitos outros foram bem acolhidos e dialogavam de igual com presenças dos movimentos sociais de todas as frentes possíveis e que também faziam parte do PT: feministas, negros, indígenas, agricultores camponeses, operários industriais, etc.
Segundo Singer, o principal ideólogo do PT nesta altura, era Francisco Weffort que chegou a ser secretário geral do PT e Lula sempre foi uma liderança forte no partido. No entanto as discussões e deliberações referentes ao formato do partido que se queria eram coletivas e horizontais.
Embora o PT tenha mobilizado os mais diferentes grupos da esquerda política como trotskistas, marxistas, socialistas cristãos, ativistas das Comunidades Eclesiais de Base, professores, estudantes, participantes de movimentos feministas, ambientalistas, de bairro etc., Singer considera o PT um herdeiro do partido socialista muito mais do que qualquer outro. Havia um ambiente democrático extremamente parecido com o partido socialista da qual Singer participou ativamente. Muitos dos militantes do partido socialista se tornaram referência do PT, a exemplo do Perseu Abramo (que até hoje dá nome a fundação ideológica, a editora do partido), Mário Pedrosa, Manoel Conceição, Apolônio de Carvalho e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros.
A fundação do PT, em fevereiro de 1980, reuniu muita gente da esquerda, que por força das circunstâncias, há muito não se via. O congresso de início do PT aconteceu no Salão do Colégio Sion em São Paulo. Singer lembra de um dia muito emocionante e estimulante não só pelo reencontro de grandes nomes, mas também pelo significado do partido, pois o PT significava a esperança de um outro Brasil, um Brasil justo e democrático. Febus Gikovate – o velho mestre de Singer no partido socialista – estava visivelmente irradiante. Infelizmente o câncer o matou antes que ele pudesse ver as grandes realizações do PT, mas ainda assim, já muito doente, Gikovate dizia: “o fundamental é reforçar um partido forte, representativo e democrático”. Singer saiu extremamente motivado do congresso.
Em 1982 o PT enfrentou a primeira eleição. Pela primeira vez o partido apresentou um candidato para as eleições. Assim, o PT lançou a candidatura de Lula para governador do Estado de São Paulo. Foi um resultado mísero. O PT elegeu apenas 8 deputados federais, sendo que 6 deles eram de São Paulo.
Singer já conhecia Lula, quando em 1978, estava preparando um livro sobre os movimentos sociais em São Paulo e para o capítulo sobre sindicatos, Singer entrevistou Lula. Alguns anos depois, já no PT – 1982, Lula e a direção do partido pediram para que Singer coordenasse um programa econômico para apresentar na campanha. Singer reuniu alguns colegas e amigos, como Kandir e Chico de Oliveira, e fez um programa onde a grande questão era a redistribuição de renda. Não o socialismo, mas um programa de desenvolvimento com o mercado interno como base. Era um programa reformista que sugeriu um salário família como uma das formas de redistribuição de renda.

12 – Participação no governo de Luiza Erundina
Em 1989 Paul Singer compõe a equipe de Luiza Erundina que se elegeu para governar a Prefeitura de São Paulo via PT.
Singer recebeu o convite para compor o governo com enorme surpresa, pois durante as prévias do PT para a escolha do candidato, Singer havia votado no outro candidato, Plínio de Arruda Sampaio. Erundina ganhou as prévias com uma grande diferença. Singer não participou da campanha, mas votou no Plínio por que o conhecia melhor e não por ter algum motivo político específico.
Embora a disputa interna do PT, Erundina convidou Plínio para ser seu secretário de planejamento. Foi um gesto democrático e, a priori, Plínio havia aceito o convite. No entanto, o Plínio era o líder do PT na Câmara de Deputados e, em 1989, o legislativo estava aprontando os desdobramentos da Constituição de 1988 e, diante das circunstâncias, Plínio julgou mais importante permanecer no parlamento do que ir para o executivo. De fato, Plínio de Arruda Sampaio teve uma importância significativa no processo constituinte .
Paul Singer não tinha expectativa de ir para o governo. Certo dia, era tarde da noite, Singer estava em casa arrumando sua biblioteca, quando recebeu um telefonema da Luiza Erundina o convidando para ser Secretário de Planejamento da Prefeitura de São Paulo. Convite que Paul Singer aceitou na hora. Não se tratava, propriamente, de ambição em ser secretário do planejamento, mas Singer entendia que como militante político que sempre foi aquela era uma oportunidade de pôr em prática, por via do Estado, todas as elaborações políticas.
Mais tarde, Singer soube que sua indicação para o governo se deu por interlocução de Chico de Oliveira que havia recebido o convite para a pasta de planejamento, mas que por motivos pessoais não aceitou o convite e indicou o nome de Paul Singer.
A Secretaria de Planejamento da Prefeitura de São Paulo, a qual Singer ocupou durante quatro anos (1989 – 1993), tinha duas áreas de atuação distintas: o orçamento da prefeitura e a questão urbana.
Na Secretaria de Planejamento, Singer tinha uma equipe composta basicamente por arquitetas que, segundo ele, eram excelentes trabalhadoras e entendiam das questões urbanas muito mais do que ele próprio. No entanto, Singer havia escrito sobre o assunto, pois sempre teve interesse por questões urbanas. Dentre os escritos havia um capitulo de livro sobre a economia política da urbanização oriundo da sua tese de doutorado. As arquitetas da equipe de Singer já o conheciam através dos seus escritos e isso facilitou bastante o trabalho conjunto. Desta forma, a questão urbana não foi uma dificuldade de sua gestão. O problema estava na questão orçamentária.
Quando tomou posse, a primeira preocupação era o orçamento. Foi então que Singer, por interlocução do seu chefe de gabinete – Paulo Sandroni, convidou Guido Mantega (que mais tarde viria ser Ministro da Fazenda e Planejamento dos Governos Lula e Dilma) para ser o responsável pelo orçamento. Havia uma particularidade da gestão da Erundina em relação aos governos anteriores, pois com a nova constituição entrando em vigor havia mais recursos destinados para os municípios. Não muito mais, mas fato é que haviam recursos, apesar da situação complicada que Jânio Quadros havia deixado a prefeitura.
Amir Khair, que era o Secretário de Finanças e que se tornará grande amigo de Singer, relatou uma situação complexa tendo em vista dívidas intermináveis. Jânio Quadros tinha iniciado um montante significativo de obras públicas que gastavam muitos recursos e não tinham sentido de ser. Neste caso, a pedido do Amir, a Secretaria de Planejamento suspendeu as obras. Tratou-se de uma decisão política que não repercutiu bem na sociedade. Provavelmente, a interrupção destas obras custou ao PT a continuação da gestão da prefeitura de São Paulo. Na época a Erundina não podia ser candidata na reeleição e Eduardo Suplicy foi o candidato do PT e perdeu.
Tendo em vista as questões orçamentárias, Erundina solicitou para que Singer dirigisse as reuniões da equipe da prefeitura. Segundo Singer, Erundina é uma pessoa e uma gestora muito democrática e modesta. Singer fala da companheira de governo, com quem muito se identificou e se tornou amigo, com grande admiração e orgulho de ter trabalhado com ela naquela ocasião.
Erundina participava de todas as reuniões, mas Singer que as coordenava. Nesta gestão todos os secretários e cargos políticos eram provenientes dos movimentos sociais e, portanto, todos tinham uma base com quem dialogar. Antes das reuniões de planejamento os secretários traziam as reivindicações da base que, segundo Singer, eram justas e necessárias, mas não havia recursos para atender todas as solicitações. A disputa de prioridades resultou em discussões infinitas e não havia um consenso. No fim, Singer elaborou uma proposta a partir das reivindicações dos movimentos e do histórico das gestões anteriores, mas, como se esperava, a proposta não ficou a contento. Havia uma insatisfação geral com a gestão de Paul Singer, os secretários alegavam que a proposta não respondia nem a metade do que precisava ser feito. Diante das circunstâncias, os secretários começaram a pedir para que Singer fosse para as comunidades conversar com a base e explicar a situação e, convencido da sua proposta de planejamento, assim o fez.
Este processo de diálogo com as comunidades se tornou uma constante do governo durante os quatro anos. A proposta de orçamento participativo do PT encantava a todos, mas, na época, o único município que conseguiu criar um sistema e formalizar a proposta foi Porto Alegre no Rio Grande do Sul que acabou por servir de referência para o mundo inteiro. Em São Paulo, o processo acabou sendo mais informal – a “moda da Erundina”, como afirma Singer, mas ainda assim os gestores iam aos bairros e ouviam a população, bem como explicavam os limites do orçamento tendo em vista o custo da vida urbana. Para Singer, foi um desafio econômico buscar garantir as necessidades da população com os recursos disponíveis. Mas fato é, que a partir destas reuniões com as comunidades é que se traçavam as prioridades a serem atendidas.
Singer lembra das assembleias nos bairros como um grande aprendizado. O professor ficava encantado com a forma como a comunidade se expressava. As mulheres eram as principais interlocutoras e havia muita criança. As crianças cantavam, corriam e cresciam naquele ambiente político, comunitário. Também havia muitos cartazes com as reivindicações e, por vezes, estes encontros também eram festivos, pois a comunidade se sentia lisonjeada com a presença e atenção da prefeita Luiza Erundina.
Deste processo de diálogo com as comunidades, Singer relata um outro aprendizado importante. Segundo ele, no Brasil os pobres são os que se beneficiam dos serviços públicos. A experiência de São Paulo mostrou que as pessoas que vivem com mais recursos, optam pela escola privada, transporte privado, hospital privado etc. Só usam o cemitério público. Houve um momento que Singer decidiu que também deveria conversar com os bairros de classe média e alta, então resolveu reunir com a população do bairro Pinheiros, considerado bairro de classe média-alta e alta da sociedade paulistana. Em Pinheiros Singer se encontrou com senhores engravatados, não havia nenhuma mulher e poucas crianças na reunião, diferente das reuniões com os bairros mais pobres. Para a surpresa de Singer, os moradores de Pinheiros não tinham reivindicações, apenas queriam saber sobre o desenvolvimento de São Paulo e apresentaram uma série de questões muito mais político ideológicas do que reivindicativas. Como eles não usavam o serviço público da prefeitura não tinham o porquê reivindicar. O contraste foi tão chocante que Singer aprendeu a lição: um governo no Brasil precisa gastar muito dinheiro porque precisa atender as grandes demandas da pobreza. A classe dominante não gosta desta estratégia e reclama porque também paga os impostos, mas num pais desigual, não há outra forma de distribuir os recursos se não atendendo os serviços públicos para a parcela da população menos privilegiada.
Foram muitas as tentativas de justiça econômica no governo da Erundina, mas nem sempre resultaram bem. Singer lembra de um episódio muito ilustrativo desta situação. A prefeita Erundina elaborou um programa de asfaltamento para São Paulo, tendo em vista as ruas da periferia a fim de permitir melhor deslocamento e acesso a alguns serviços que tinham dificuldade de transitar em alguns espaços como ambulâncias e coletores de lixo. Os serviços públicos não podiam rodar para dentro dos bairros da periferia porque as vias eram intransitáveis. A proposta era garantir a execução do programa sem pagar fortunas de dinheiro para as empresas capitalistas que monopolizavam o serviço. Neste caso, a prefeitura abriu um edital para o asfaltamento que privilegiava as empresas pequenas. Feita a licitação, o monopólio das grandes empresas entrou na justiça e anulou a licitação.
Também era complicado porque o executivo precisa aprovar as propostas, principalmente o orçamento, na Câmara de Vereadores, mas o PT havia perdido a maioria na câmara e isso paralisou totalmente o processo. Houve propostas encaminhadas que jamais foram discutidas. Singer lembra que em certo momento conseguiram aprovar uma lei que determinava que o Imposto sobre a Propriedade Predial Urbana (IPTU) devia ser proporcional à renda do proprietário: seja apartamento, prédios comerciais, etc., mas a justiça negou a lei alegando que a renda não tem relação com o imposto.
No último ano de governo, a prefeitura quase não obteve arrecadação do IPTU. Não havia dinheiro para nada e, para completar a má situação, houve enorme chuva que provocou alagamentos em toda cidade, somada a greve dos ônibus e outros serviços, enfim, as circunstâncias não eram favoráveis para a reeleição do PT.

13 – Economia solidária
Influenciado por sua história de vida e pelos seus estudos teóricos e políticos, Singer passou a dedicar grande parte da sua vida para o que mais tarde chamou de economia solidária. Como já mencionado anteriormente, a experiência do Dror foi fundamental para pensar a proposta da economia solidária. A experiência dos kibutzim foi a primeira formação socialista que conheceu e que se aproximava da prática de uma outra economia. Muitos anos se passaram e uma vida militante aconteceu depois do Dror: militou no sindicato dos metalúrgicos, nos partidos socialista e dos trabalhadores, na universidade, na sociedade civil, no poder público, etc. Em toda esta história, aquilo que seria a economia solidária da adolescência de Singer, ficou sempre na sua memória e no subconsciente.
Singer já não se considerava mais um marxista, como no período do grupo do O Capital. Aliás, esta relação com Marx foi mudando durante o período do CEBRAP. Mas, foi nos anos 1980 que Singer começou se questionar sobre o que era o socialismo. Em determinado momento da vida, Singer percebeu que a ideia de Marx de centralizar o planejamento de toda a economia num único grupo de dirigentes é antidemocrática e viola os direitos humanos. Era estratégico, para Marx, levar o capitalismo com suas tendências de concentração do capital às últimas consequências a fim de resultar na vida livre, no socialismo, mas, na prática, não foi isso que aconteceu. Se esse não era o socialismo, o que era socialismo? Para Singer, Marx continua sendo uma grande referência, mas não concorda com o endeusamento relacionado a sua figura. Singer está convencido que a criação do marxismo foi uma violação ao próprio Marx – que certamente nunca quis que suas teorias fossem doutrinárias e inquestionáveis.
Indagando-se sobre essas questões, Singer começou a repensar o processo e neste período (1983) publicou um livro chamado Aprender economia onde escreveu um capítulo intitulado Socialismo oriundo destas questões todas, mas sobretudo reflexo de um curso que Paul Singer ministrou no Rio de Janeiro onde já apareceram algumas ideias de economia solidária, mas sem esse nome. Outro livro importante que também é reflexo destas indagações é Uma Utopia Militante. Repensando o socialismo, publicado em 1998.
A conjuntura social, econômica e política também contribuiu muito para repensar o processo. Em 1981 ainda havia ditadura militar no Brasil e o Ministro da Fazenda da época era Delfim Netto – que havia sido professor de Singer na universidade e era e, continua sendo, uma figura importante para a economia brasileira. Certa vez, Delfim voltou dos Estados Unidos – onde ia anualmente buscar recursos para o Brasil e, assim, “rolar” a dívida pública brasileira – e, no próprio aeroporto, recebeu a imprensa para uma coletiva onde disse para a população que os credores não acreditavam mais no Brasil, pois entendiam que o país não teria mais condições de pagar a sua dívida externa e, por conta disso, não haveria mais negociação e condições de obter novos empréstimos sem antes pagar as dívidas que estavam vencendo. Diante das circunstâncias o governo teria de adotar medidas rígidas que hoje conhecemos como austeridade. Aquele momento mudou totalmente a situação econômica do Brasil, pois o governo fez um drástico programa de cortes de despesas públicas.
Este processo é muito semelhante ao que ocorreu recentemente na Europa (Portugal, Espanha, Grécia…), mas antes aconteceu na América Latina – não só no Brasil. Fato é que o Brasil entrou na pior crise da sua história. Afetou fortemente os países importadores do petróleo, pois tinha relação com os choques do petróleo que ocorreram em 1974 e 1979, onde o preço do petróleo subiu 400% e isso gerou uma enorme inflação. Nunca houve tanta inflação fora de guerras mundiais. No Brasil chegou a ser considerada hiperinflação.
Diante desta conjuntura, Singer, assim como tantos outros estavam observando o processo e pensando alternativas. O socialismo real tinha fracassado em 1991. Havia acabado a União Soviética e os países ditos socialistas (nunca foram, mas assim se denominavam) acabaram voltando ao capitalismo. Neste caso, era preciso pensar numa alternativa, pois a alternativa neoliberal respondia apenas aos interesses do capital e não servia aos trabalhadores.
Durante o período que Erundina, Singer e outros estavam na prefeitura de São Paulo já se preocupavam com as alternativas possíveis, pois em São Paulo a situação era crítica e desesperadora. Tratava-se de uma crise do desemprego que nunca havia se vista no Brasil. Milhões de trabalhadores ficaram desempregados e precisaram abandonar suas casas e seus modos de vida. Singer lembra que nunca se viu tanta gente tentando morar nas ruas de são Paulo. A situação era nova e ninguém sabia o que fazer.
Embora a preocupação de Singer e os companheiros de governo, nesta época não houve grandes avanços na perspectiva das alternativas possíveis. No entanto, havia algumas experiências que estavam acontecendo no Brasil em resposta a crise, mas não eram visíveis, das quais Singer só soube e as conheceu muitos anos depois. Dentre as iniciativas, Singer destaca a estratégia criada pela igreja brasileira, que segundo Singer, é extraordinariamente progressista, pois por influência da teologia da libertação prega o socialismo cristão, a autogestão e o desenvolvimento comunitário. Assim, a igreja, através da Caritas Brasileira e com recursos da Caritas Internacional, estimulou iniciativas coletivas e produtivas de trabalho que tiveram um impacto significativo em várias comunidades do Brasil. Trata-se dos Projetos Alternativos Comunitários (PACs) que surgiram no início da década de 1980 e foram fortalecidos na década de 1990.
Alguns anos depois, em 1996, a crise ainda não tinha sido superada. Luiza Erundina foi novamente candidata a prefeita de São Paulo. Como podia se esperar, Paul Singer se envolveu ativamente na campanha eleitoral. Certo dia, Singer estava em casa assistindo o noticiário transmitido pela televisão, quando deparou-se com a triste notícia de que o desemprego em São Paulo superava um milhão e quinhentos mil pessoas. Perguntava-se fazer o quê?
O pessoal da campanha já havia reunido com o empresariado e a condição para abrirem mais postos de trabalho era a diminuição dos impostos, mas esta questão estava fora de cogitação. Não havia como diminuir os impostos frente a crise. Assim, Singer elaborou uma proposta pensando em uma forma de reintroduzir coletivamente os desempregados na produção. A proposta de Singer tinha origens históricas em uma cooperativa específica que foi criada em 1844 em Rochdale – uma cidade da Inglaterra afetada pela Revolução Industrial. Tratava-se de um grupo de 28 operários, parte deles tecelões, que diante da crise organizaram uma cooperativa “Os probos pioneiros de Rochdale” pautada por alguns princípios fundamentais que a Aliança Cooperativa Internacional adota até hoje, mas já foram ampliados em sucessivas reuniões mundiais. Segundo Singer, estes princípios são fundamentais para compreender a economia solidária. Dentre eles, destaca: a ”porta aberta” – a porta está aberta para a entrada de novos trabalhadores, mas também está aberta para quem quiser sair; e a autogestão – o coletivo se auto administra democraticamente. As decisões são deliberadas em assembleias onde todos têm o mesmo espaço de voz e vez. Pautado pela experiência de Rochdale, Singer passou a formular sua proposta entendendo que as iniciativas cooperativas contribuiriam para uma outra economia, pois se diferem de uma empresa capitalista pela organização social da produção, pela relação estabelecida entre os trabalhadores associados e entre estes e o capital, tendo em vista que a propriedade é coletiva, os trabalhadores se apropriam de forma igualitária da sobra (lucro no capital) e as decisões são coletivas e regidas por princípios éticos como cooperação, autogestão e solidariedade. Assim a economia solidária surgiu na Inglaterra do século XIX em decorrência de uma crise social e econômica e é evidenciada no Brasil do século XX pelos mesmos motivos.
A proposta de Paul Singer consistia em organizar os trabalhadores desempregados em cooperativas. A ideia era fazer um cadastro geral e, na sequência, discutir com os trabalhadores desempregados as condições para a organização das cooperativas ou não. Além disso propôs a criação de uma moeda social, pois não havia dinheiro e precisavam de uma alternativa para circular recursos, caso contrário não seria possível viabilizar esta outra economia. Quando Singer apresentou a proposta para a campanha da Erundina, de imediato foi aprovada e contemplada no programa de governo do PT. Quando terminou a reunião, Aloisio Mercadante, que era candidato a vice-prefeito ao lado de Erundina, chamou Singer e perguntou que nome era dado para a proposta alternativa. Singer acreditava na ideia, mas não tinha perspectiva em batiza-la, foi então que Mercadante sugeriu o nome Economia Solidária. Nome adotado por Singer daquele momento em diante.
Tempos depois, Singer soube que o chileno Luis Razeto, professor de economia aposentado, já havia formulado uma proposta com nome semelhante: economia da solidariedade. Singer conheceu Luis Razeto pessoalmente em 2008 por intermediação de Cláudio Nascimento que era um militante na época da ditadura, que foi exilado na Europa, e neste contexto se aproximou das experiências de autogestão que muito se aproximam da economia solidária.
Infelizmente a Erundina perdeu a eleição e não houve a chance de colocar a proposta em prática. No entanto, em julho de 1996, Singer escreveu um artigo no jornal Folha de São Paulo intitulado Economia solidária contra o desemprego, bem como constava no programa de governo do Partido dos Trabalhadores. Este artigo teve uma grande repercussão e, para a surpresa de Singer, recebeu muitas mensagens pela internet dizendo que aquilo que ele chamava de economia solidária já estava acontecendo em vários cantos do Brasil e do mundo. Inclusive, Singer lembra de receber uma carta dos Estados Unidos contando uma experiência que estava acontecendo lá. Desde então, Singer percebeu que ele não era o criador da economia solidária, mas abraçou a proposta, procurou conhecer todas as experiências que diziam existir, inclusive os PACs, e assim, tratou de visibilizar esta outra economia da qual se tornou o principal teórico e expoente no Brasil e no mundo.
Alguns meses depois da publicação do artigo, Singer foi convidado para conversar sobre a proposta da economia solidária com os militantes e dirigentes da Central Única de Trabalhadores – CUT – da qual o próprio Singer já havia participado. Da relação sindical emergiram duas experiências que tiveram estreita relação com Paul Singer: A Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionária – ANTEAG – que surgiu em 1991 a fim de apoiar as empresas recuperadas pelos trabalhadores que se organizavam de forma associada para assumir a massa falida; e a Agência de Desenvolvimento Solidário – ADS, criada em 1999 pela CUT tendo em vista a busca de novos referenciais de geração de trabalho e renda para os trabalhadores e de alternativas de desenvolvimento.
Neste período, havia um grupo pequeno de professores – da UNICAMP e Singer pela USP – que começou a estudar o assunto. Em 1995, realizaram na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo uma reunião para aproximar envolvidos com a outra economia e, para a surpresa dos articuladores da reunião, apareceram cerca de 30 pessoas. Dentre as experiências que apareceram, Singer lembra da CONCRAB (Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil) articulada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que foi criada em 1992 com a perspectiva de aglutinar as cooperativas e associações de agricultores assentados pela reforma agrária no Brasil; e da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) vinculada a universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, onde professores e técnicos do Centro de Pós-graduação de Engenharia (Coppe) atenderam aos pedidos de formação de cooperativas de trabalho e criaram a incubadora em 1995. A ITCP da UFRJ foi a primeira incubadora de economia solidária do Brasil, hoje existem mais de 100.
Em 1997, a Fundação Unitrabalho articulou uma reunião chamando pesquisadores universitários de todo Brasil. A partir desta reunião, elaborou-se um amplo projeto de pesquisa de âmbito nacional com a finalidade de conhecer a realidade da economia solidária e da autogestão no Brasil.
Para dar visibilidade para as diferentes experiências e as reflexões teóricas, mais tarde, Paul Singer publicou alguns livros sobre o tema, entre eles destaca-se: Globalização e Desemprego: diagnósticos e alternativas, publicado em 1998, A economia solidária no Brasil: a autogestão como resposta ao desemprego organizado em parceria com André de Souza e publicado em 2000; Introdução à Economia Solidária publicado em 2002; e a importante participação com o capítulo A recente ressurreição da economia solidária no Brasil no livro organizado por Boaventura de Sousa Santos e intitulado Produzir para viver: os caminhos da produção não capitalista, publicado em 2002.
Desta forma, pouco a pouco Singer foi se tornando uma referência para as mais diferentes experiências e, assim, teve um papel fundamental na congregação e no diálogo de gente que estava realizando iniciativas muitos semelhantes e que, mesmo guardando as diferenças, eram compatíveis entre si: sindicato, igrejas e universidades. A partir daí o movimento de economia solidária no Brasil foi se formando e cresceu muito, inclusive, com importantes reflexos internacionais.

14 – A Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES)
A SENAES surgiu em 2003, no âmbito da vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2002. Mas, Singer lembra que houve todo um processo político anterior tanto no espaço interno do PT quanto no espaço de articulação da economia solidária pelo seu movimento que não pode ser ignorado.
Em 1999/ 2000, houve um congresso nacional do PT em Belo Horizonte em que foi debatido o problema do significado do socialismo nos tempos pós-muro de Berlim, quando os regimes do chamado socialismo real foram derrubados e substituídos por regimes democráticos contribuindo para a hegemonização do sistema econômico capitalista. Isso trouxe um impasse para a esquerda e, designadamente, para o PT, um partido que se reconhece socialista desde a sua criação. Segundo Singer desencadeou-se uma grande polêmica no PT, tendo uma parte dos filiados entendido que se tratava do fim do socialismo e advogado que era preciso pensar em outra alternativa; enquanto uma outra parte, incluindo Paul Singer, que defendeu a bandeira do socialismo, afirmando que este é anterior ao socialismo real que se impôs em 1917 e que, portanto, se o socialismo real entrou em crise e estava acabando, isso não significava que o socialismo tivesse deixado de ter atualidade.
Tendo em vista esta polêmica, em 2002 o PT promoveu, por interlocução do professor Antônio Cândido, uma série de seminários sobre o socialismo que, entre outros temas, debateram a Economia Socialista. Singer e Chico de Oliveira foram algumas das pessoas que Antônio Cândido chamou para ajudar na organização dos seminários. No seminário sobre economia socialista, Singer foi convidado a debater com João Machado e, nessa ocasião, Singer teve a oportunidade de falar sobre a economia solidária, que era uma reflexão tímida para dentro do PT, para os militantes do partido, inclusive toda a direção do PT estava presente. Esse debate está refletido no livro Economia Socialista publicado em 2000. Diante desta reflexão, houve certa unanimidade de que economia solidária deveria necessariamente estar nas plataformas e nos programas dos candidatos do PT. Então, quando Lula foi eleito, havia um compromisso de desenvolver uma política de fomento à economia solidária.
Além desta discussão no interior do PT, outros campos políticos (movimentos sociais e organizações da sociedade civil) ligados à esquerda introduziram em suas agendas a discussão sobre a economia solidária. O Fórum Social Mundial (FSM) foi um dos acontecimentos decisivos na história da economia solidária no Brasil. Desde sua primeira edição, em 2001, teve papel significativo como espaço de articulação entre uma série de entidades que começaram a dar forma ao movimento de economia solidária no Brasil. No primeiro FSM foi legitimado um Grupo de Trabalho de Economia Solidária (GT Nacional) que, a partir de então, foi o centro de mobilização para uma sequência de iniciativas políticas pensadas para configurar o movimento. Paul Singer teve participação ativa neste processo. Este GT foi importantíssimo para a constituição das primeiras plenárias de economia solidária – espaço político que reúne ativistas da economia solidária para pensar as estratégias sobre a mesma e que indicariam o rumo do movimento de economia solidária no Brasil.
A partir das primeiras plenárias (uma em Porto Alegre no FSM e outra em São Paulo) formou-se uma comissão responsável em negociar, junto ao Governo Lula, a inserção de políticas públicas para a economia solidária na plataforma de governo. O resultado desse diálogo deu origem a SENAES dentro da estrutura do Ministério do Trabalho e Emprego, que só se efetivou um semestre mais tarde, em junho de 2003, por conta de uma lei que estava tramitando no Congresso e que reorganizava toda a estrutura do governo federal. No processo de negociação, o nome de Paul Singer foi apresentado pelo movimento para ser o Secretário Nacional de Economia Solidária e foi aceito pelo presidente Lula e pelo então ministro do trabalho Jaques Wagner.
No dia seguinte à posse de Paul Singer (26 de junho de 2003), ocorreu a III Plenária Nacional de Economia Solidária, onde foi criado o Fórum Brasileiro de Economia Solidária – FBES como espaço da sociedade de interlocução com a SENAES. A III Plenária de Economia Solidária reuniu 800 delegados do Brasil inteiro. Segundo Singer, para a economia solidária da época, tratava-se de um montante significativo de pessoas.
Neste caso, embora já houvesse uma pré-disposição do partido com o tema, a SENAES nasce a partir de uma demanda do movimento que na época estava iniciando e hoje está presente nos 27 estados do país. O FBES é o principal interlocutor da SENAES desde o início. Desta forma, as políticas públicas de economia solidária no Brasil são realizadas em estreita parceria com a sociedade. Singer diz que a secretaria procura manter encontros, reuniões comuns com o fórum periodicamente – pelo menos, uma vez por mês, mas nem sempre é possível porque o fórum, como o Brasil, é muito grande. O FBES não tem condições de fazer reuniões frequentes, mas, quando as faz, geralmente a SENAES se faz presente e faz um balanço das políticas que estão em vigor e daí nascem propostas e ideias.
Singer diz que fazer políticas de economia solidária no Brasil é bem mais complexo do que pode parecer, pois são muitos os limites impostos pela máquina pública, principalmente a questão orçamentária. Quando o parlamento aprova o orçamento, ele aprova um valor específico para a SENAES, esse dinheiro não é liberado imediatamente, é liberada uma fração muito pequena, algo como 20% e só depois libera o resto.
Singer afirma que as políticas públicas da SENAES são implementadas por um triângulo: um vértice, já foi dito, é o movimento; outro é o governo; e o terceiro vértice são as entidades da sociedade civil. A SENAES não tem outra forma de implementar as políticas a não ser em parceria com as entidades que entendem e fomentam a economia solidária. Estas entidades são selecionadas por chamada pública, é obrigatório. Singer chama a atenção para a importância dos parceiros da sociedade civil: eles são decisivos, pois de nada adianta uma política bem desenhada, bem elaborada se não for bem executada.
É uma enorme burocracia que viabiliza os projetos de políticas públicas, mas Singer está convencido de que essa burocracia tem razão de ser, pois existe grande corrupção em torno serviços prestados para o Estado, não é o caso da economia solidária, mas ainda assim precisa de cuidados e fiscalização.
Para Singer, as políticas mais importantes da SENAES estão no campo da educação, pois a economia solidária precisa ser difundida tendo em vista que se almeja uma transformação total, não só na economia, mas na política e na cultura. Por conta desta perspectiva, Singer acredita que a SENAES hoje é uma secretaria dos movimentos sociais e, isso, é um dos seus principais orgulhos, pois os principais movimentos sociais do Brasil hoje dialogam com a economia solidária, fazem economia solidária tendo em vista outra lógica de desenvolvimento.
O Mapeamento Nacional de Economia Solidária também é muito importante, pois é um material precioso para promover o desenvolvimento da economia solidária e conhecer a realidade sobre a qual se atua. O mapeamento mostra, por exemplo, que economia solidária brasileira está ficando extremamente diversificada: há quilombos de pescadores, de extrativistas, de agricultores; há comunidades indígenas, etc.; as mulheres são a vanguarda da economia solidária no Brasil. Para além de mapear a economia solidária no Brasil, o mapeamento também cumpre um outro papel: dar visibilidade para a outra economia, pois é preciso esforços para destacar estas outras formas de produzir e viver, assim, garantir a política pública. Singer lembra de uma conversa com o presidente Lula, durante a primeira Conferência Nacional de Economia Solidária, em 2006, onde expos sobre os avanços da economia solidária e ele disse que para o governo investir mais e dar mais força para a economia solidária, era preciso que esta crescesse, “Cresçam e apareçam”. Singer diz que foi difícil ouvir a consideração de Lula, mas é assim que funciona o poder público.
Apesar das dificuldades, Singer está feliz com o trabalho da SENAES e está convencido de que a mesma tem cumprido um papel muito útil ao Brasil e, principalmente, para as pessoas que acreditam em outras formas de viver a economia. A SENAES e o governo são importantes, mas a sociedade civil precisa estar organizada pressionando e orientando o governo. O sucesso da economia solidária depende de uma estreita relação entre sociedade e Estado.
Para concluir Singer afirma que outra economia acontece e não se trata de utopia. A economia solidária está sendo praticada em pelo menos 200 países. No Brasil, desde 2004, o mapeamento realizado pela SENAES já identificou 33.518 empreendimentos econômicos solidários em todo o território nacional e isso não é pouca coisa, enfim, outra economia acontece!

Referências

LECHAT, Noel. M. (2002). As raízes históricas da economia solidária no Brasil. Palestra proferida na UNICAMP por ocasião do II Seminário de incubadoras tecnológicas de cooperativas populares. Disponível em: http://www.itcp.unicamp.br/site/downloads/ext_doc2.doc
MANTEGA, Guido e REGO, José Márcio (1999). Conversas com economistas brasileiros II. São Paulo: editora 34
SINGER, Paul (2002). A recente ressurreição da economia solidária no Brasil. In: Boaventura de Sousa Santos (org.). Produzir para viver: os caminhos da produção não capitalista. Rio de janeiro: Civilização Brasileira.
_____________. (2004). O novo pensamento econômico socialista e sobre os papéis do Estado, dos trabalhadores e dos movimentos sociais no desenvolvimento da economia solidária no Brasil. Entrevista realizada por Renato Rovai e Anselmo Massad. Disponível em: http://www.revistaforum.com.br/vs3/artigo_ler.aspx?artigo=a3c7dea5-994a-47e0- ad05-45b291dd25f8.
_____________. (2005). Memória: Paul Singer. Entrevista realizada por Paulo Vannuchi e Rose Spina. Revista. Teoria e Debate, Fundação Perseu Abramo. Disponível em http://www.teoriaedebate.org.br/materias/nacional/paul-singer
_____________. (2007). Economia solidária. Entrevista realizada por Paulo de Salles Oliveira. 23 de setembro de 2007. ESTUDOS AVANÇADOS 22, 2008.
_____________. (2012). Os oito primeiros anos da Secretaria Nacional de Economia Solidária. A economia solidária na América Latina: realidades nacionais e políticas públicas. Lianza, S.; Chedid, F. (orgs.). Rio de Janeiro: Pró Reitoria de Extensão UFRJ (49-54).
_____________. (2013). Militante por uma utopia. São Paulo: Com-Arte.
_____________. (2014a). Mestre do Mundo: Paul Singer. Várias entrevistas realizadas por Aline Mendonça dos Santos em abril de 2014. Projeto ALICE.
_____________. (2014b). ALICE Interview nº 12: Paul Singer. Entrevista realizada por Aline Mendonça dos Santos em 03 de abril de 2014. Disponível em: https://youtu.be/iVNYbyTjlyU
_____________. (2014c). Roda de Conversas com Paul Singer. Palestra proferida na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, organizada pelo Grupo ECOSOL CES e Projeto ALICE por ocasião do Colóquio Internacional Epistemologias do Sul – 09 de julho de 2014.
_____________. (2014). Economia solidária se aproxima das origens do socialismo. Entrevista realizada Joel dos Santos Guimarães e Paula Quental, do Brasil Debate publicado 24/12/2014.

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One thought on ““Paul Singer: uma vida por outra economia” por Aline Mendonça

  1. Me orgulho de ter feito parte não somente do Grupo de Trabalho de Economia Solidária (GT Nacional) que indicou Prof Singer para ser dirigente da SENAES no primeiro mandato do Governo Lula , como pela amizade pessoal iniciada nos anos 80-90 nos cursos e palestras organizadas pela FASE NACIONAL no Rio de Janeiro. Sobre o nascimento da SENAES e Plenária que fundou o FBES , ela foram no mesmo dia em Brasilia (ver a publicação Do FSM ao FBES – livro rosa- organizado e publicado na 1 edição em 2004 😉

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