O que disse D. Paulo Evaristo Arns

As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje,
sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as
esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se
encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração. Com
efeito, a sua comunidade se constitui de homens que, reunidos em Cristo, são
dirigidos pelo Espírito Santo, na sua peregrinação para o reino do Pai. Eles
aceitaram a mensagem da salvação que deve ser proposta a todos. Portanto, a
comunidade cristã se sente verdadeiramente solidária com o gênero humano e
com sua história (cfr. Gaudium et Spes, n. 1)”.
Fiel a esse pensamento do Concílio, a Comissão Justiça e Paz de nossa
Arquidiocese promoveu importante estudo sobre a Cidade de São Paulo e sua
periferia. Entregando ao público o resultado desta tarefa, ela amplia o horizonte
e aprofunda a compreensão dos Direitos Humanos. Amplia o horizonte,
abraçando os problemas que se colocam para a maioria da população, no
desamparo de seus direitos mais elementares; e aprofunda a compreensão,
verificando a extensão dos males que nos afligem e buscando as suas causas
a partir da raiz, para que esta possa ser atacada e extirpada.
Estes dados, estudos e interpretações não pretendem esgotar o tema e nem
desejam ser uma palavra última e definitiva sobre a realidade da terra
evangelizada por Anchieta. As ideias e informações, agora reunidas em livro,
sugerem apenas a retomada de um amplo debate e apontam alguns caminhos
de ação.
A pujança do crescimento de São Paulo, representado pela concentração, sem
paralelo no país, dos meios de produção dos serviços, do capital, da riqueza,
enfim, vai de par com o aumento da pobreza. O desenvolvimento paulistano,
examinado à luz das condições de vida dos habitantes, traduz-se num elevado
e crescente desnível entre a opulência de uns poucos e as dificuldades de
muitos. O agravamento das condições de vida da maioria é um índice que se
revela de modo dramático na inflexão da curva da mortalidade infantil. Em
constante declínio a partir de 1940, tendo diminuído em 30% entre 1940 e
1950, de 32% entre 1950 e 1960, esta experimentou violento recrudescimento
entre 1960 e 1973, tendo aumentado 45%.
É missão do Bispo concretizar a mensagem da salvação, repetindo aos
homens do seu tempo os apelos de Cristo e dos Apóstolos. A partir desta
análise dos problemas de São Paulo, elaborada por renomados cientistas,
convidamos o povo dessa cidade a refletir sobre esse lancinante desafio.
Ninguém poderia sentir-se excluído desse convite. Dirige-se ele a todas as
pessoas responsáveis, sem distinção de nacionalidade, raça, ideologia ou
religião. O apelo se dirige, de modo mais veemente, a todos aqueles que
detêm parcela de poder nesta cidade. E aos leigos de nossa Igreja. Esse
convite participa da urgência a que o amor ao próximo nos obriga. O Bispo, e
com ele toda a Igreja, não pode assistir, calado, a uma violência difusa que
atinge o povo, ceifando vidas, pela desnutrição e pelas más condições de
saneamento e saúde, pelos acidentes de trabalho e de trânsito, pelo excesso
de trabalho, fadiga e depauperamento, pelo desemprego e pela remuneração
que não cobre as necessidades mínimas, pela ausência de moradia e
precariedade de transportes, pela insegurança e pela asfixia da liberdade de
associação, informação e reivindicação.
Não basta porém hoje em dia sentir os problemas e mesmo comover-se
perante a miséria e a desgraça, nem mesmo parar na busca de um lenitivo
para os que batem à nossa porta. Não bastam nem mesmo as organizações
que se desdobram para minorar os sofrimentos dos doentes, dos velhos e dos
abandonados. Cumpre chegar às causas dos males e mobilizar-se para
combatê-las com coragem, paciência e determinação.
Haveria uma lógica na desordem estabelecida? Existe crescimento econômico
que se constrói sobre a dilapidação da vida dos trabalhadores obrigados a
horas excessivas de trabalho, para compensar a queda do poder aquisitivo de
seus salários. É pois uma radiografia da situação de São Paulo acompanhada
do diagnóstico das causas desta acumulação da miséria, que entregamos aos
homens que lutam para humanizar a cidade e modificar as condições de vida.
Divulgar os males seria contribuir para agravar os problemas e para exasperar
o povo? Os fatos angustiam, mas conhece-los é um caminho necessário para o
encontro e aceitação das soluções. E o povo, pela experiência quotidiana,
conhece com a acuidade e a lucidez de quem precisa lutar cada dia para
ganhar o pão, para si e sua família, a extensão e a gravidade dos problemas. É
preciso romper as barreiras que se opõem a que o povo se organize, participe
e contribua para a solução de seus problemas e dos problemas da cidade. “Na
medida em que a iniciativa social e política das classes trabalhadoras continuar
bloqueada, será difícil vislumbrar uma cidade verdadeiramente humana em
São Paulo”.
Consciente desta tarefa, a Igreja traçou objetivos prioritários de ação. Está
presente nas áreas mais difíceis da periferia, tentando a integração de um povo
disperso e desarticulado. Tenta uma presença no mundo do trabalho, junto a
esse povo sofrido que constrói a cidade, às vezes com o preço da própria vida.
A Igreja segue o exemplo de Cristo e dos Apóstolos, procurando alinhar-se ao
lado dos oprimidos e injustiçados, lançando as bases de uma participação
efetiva do povo em todos os níveis de vida e cultura urbana.
É por aí que passa a voz do povo. Se formos atentos a ela, ouvindo os seus
clamores, estaremos captando os sinais dos tempos e ouvindo a voz de Deus
na história de hoje.
Um povo que não se massifica poderia ser o resultado de pequenas
comunidades de base, conscientes de seus direitos e deveres, influenciando
nas decisões que envolvem o Bem Comum e portanto o destino da
coletividade.
Consciente de que os grupos de pastoral popular e todos os que estão
empenhados em conhecer a realidade de São Paulo e os mecanismos que
comandam esta realidade irão refletir, debater e transformar as contribuições
aqui apresentadas em novo alento para uma ação evangelizadora e
libertadora, entregamos a eles este estudo sobre “São Paulo-1975,
Crescimento e Pobreza”, agradecendo ao CEBRAP e à Comissão Justiça e
Paz a inestimável colaboração prestada.
São Paulo, 24 de junho de 1976 – Festa de São João Batista
Paulo Evaristo, CARDEAL ARNS – Arcebispo Metropolitano
Compartilhe
Compartilhe no FacebookCompartilhe no Google+Compartilhe no Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *