Edição Especial da Revista P2P & Inovação sobre Paul Singer

Apresentação de Armando de Melo Lisboa (trecho selecionado)

Nesta edição especial de P2P vários artigos ilustram o grande e raro intelectual que foi Paul Singer, que já há muitas décadas contribuiu decisivamente para inspirar e renovar diversas gerações em diversas áreas do conhecimento. Particularmente, o artigo de Hoyêdo Lins desnuda a importância das reflexões de Singer para as gestões municipais deste imenso país há praticamente 50 anos.

Se “convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras” (Nietzsche), Singer é um belo exemplo de alguém que não ficou preso as ilusões de suas certezas ou num confortável trono, deslumbrado com toda sua contribuição anterior, por mais relevante que seja e que o consagrou ainda jovem como economista e pensador. Ele próprio nunca se congelou e ossificou, como o fez ao, tardia e humildemente, reconhecer a importância da temática ecológica[1].

Nas últimas duas décadas de vida, quando então já era celebrado como um dos clássicos do pensamento econômico brasileiro, Singer abraça a economia solidária (ecosol). E por ela é abraçado. Reconhece então que o movimento da ecosol “é muito mais rico do que nossas formulações. Ele não cabe nos nossos esquemas” (entrevista à Loureiro, 2008). Esta riqueza e complexidade transparece nos artigos de Nelsa NespoloIoshiaquiShimbo e pessoal do NuMI-EcoSol/UFSCar; Elisete Correggio e Sandra Schlichting; e André Souza, presentes nesta Revista.

Mesmo estando já consagrado, perfez uma evolução simplesmente abissal, até por entender que adentrou num campo novo onde vai muito mais reagir e aprender com a “outra economia que nasce com o povo”, do que dirigir e ensinar: “o que me encanta na economia solidária é que ela vem de baixo. E que nós que estamos à sua testa – e eu tenho hoje condições de dizer que estou por causa do cargo no governo; eu sou empurrado na verdade, eu não lidero” (2008).

Entre 1996 e 1997 ele tinha se aproximado (“recriado”, cf. ele mesmo dizia) da ecosol como forma de abrir alternativas no núcleo da economia industrial (especialmente São Paulo) para os operários desempregados com a nova revolução tecnológica. Ocorreu então uma famosa reunião na PUC/SP em setembro de 1997, convocada pelo GT de Economia Solidária da Unitrabalho, rede recém criada a partir da CUT, e coordenada por Singer e Cândido Vieitez (Unesp)[2].

Após a apresentação da pioneira Incubadora de Cooperativas da UFRJ, por Gonçalo Guimarães, fundador e coordenador da mesma, voltada para a organização econômica da população de baixa renda moradora nas favelas e tradicionalmente excluída do mercado de trabalho industrial, Singer foi taxativo e, do alto de sua autoridade, proferiu que “não era nada disso que ele vislumbrava para a ecosol”. Encerrado aquele primeiro dia, no início da manhã do segundo e último dia Singer abre os trabalhos informando que ter lido naquela noite um livro sobre “economia popular” do Coraggio[3] que alguém emprestou no dia anterior e que até então desconhecia. Aí comunicou que estava se reposicionando pois tinha entendido melhor o papel “dos setores populares” dentro do campo da ecosol. Um ano após, em 1998, a ITCP/USP foi criada, tendo em Singer seu principal impulsionador e dinamizador. Seu entusiasmo contagiou a inúmeros jovens acadêmicos, como atesta o artigo de André Souza nesta revista.

Isabel Loureiro fez uma reveladora entrevista em 2008 com Singer. Ela então buscava material para um filme sobre Rosa Luxemburgo e estava a descobrir Paul Singer como um dos três maiores luxemburguistasbrasileiros (Mário Pedrosa e Michel Lowy os dois outros)[4]. Perguntado sobre este “legado luxemburguista”, o qual conheceria desde sua adolescência, responde que “não estava consciente” do mesmo até aquele momento da entrevista, frustrando aqueles que se apressam em rotulá-lo de “luxemburguista”. Ocorre que Singer simplesmente leu e inspirou-se em Rosa, sem se preocupar em se apresentar como discípulo desta ou de qualquer outro.

Para Singer, a grande qualidade da Rosa é a “absoluta recusa da ortodoxia”, especialmente ter ousado criticar o próprio Marx, pois “nenhuma contribuição é definitiva”. Sua virtude é, simplesmente, ter exercido o pensar, que, por definição, é livre e capaz de duvidar, ou não é pensar. Assim, Singer conclui a entrevista iconoclasticamente, afirmando que a própria Rosa, para se tornar atual e relevante hoje, precisa “ser superada”, e não cultuada e reverenciada num pequeno clube de fãs.

Ortodoxias produzem seitas e cegueiras. Singer debateu-se continuamente com a cegueira de uma certa esquerda em aceitar a realidade dos mercados. Nesta edição de P2P o artigo de Fernando Muller e Sjoerd Robijnajuda a quebrar os incríveis bloqueios quanto aos mercados que teimam em persistir entre aqueles que buscam alternativas ao capitalismo. Em vida Singer demonstrou a importância fulcral de enfrentar e não pactuar com quaisquer ortodoxias e poderes (inclusive levando-o a criticar publicamente o próprio governo petista de que fazia parte, como revela Valmor Schiochet em seu artigo nesta revista). Coerente com esta práxis ao longo de toda sua vida, afirmou em outra entrevista (2005) que deixou-se de se “considerar marxista quando descobri que ser marxista significaria jamais questionar qualquer coisa que Marx tivesse assinado”.[5]

Outro traço central de Rosa Luxemburgo realçado por Singer, na entrevista a Loureiro, é serem “as massas”, as pessoas comuns, jovens e camponeses, que fazem e dirigem as mudanças, e não vanguardas dirigentes, as quais, na verdade, tendem a refrear as mesmas.

“Rosa Luxemburgo estava certa. As grandes transformações, a revolução social em marcha que existe hoje no mundo é tocada pelas pessoas que veem nisso uma solução concreta para seus problemas” (2008).

Esta lição, bem aprendida em sua juventude com Rosa, voltou a encantar Singer quando se deparou com o movimento da economia solidária na última etapa de sua vida: “essa visão das massas como carregando o ímpeto da mudança é uma coisa que calou fundo em mim, e eu a reencontrei na economia solidária” ( 2008).

Para Singer a ecosol “não foi encontrada por ninguém – não foi inventada pela Igreja, não foi inventada pelos sindicatos –, foi uma criação das pessoas em situações difíceis, mas recorrendo às forças comunitárias que são socialistas, em última análise” ( 2008).

Intelectual é quem está “completamente dentro” dos movimentos da história, não aquele que lidera, pois os novos metabolismos societários não comportam mais lugar para vanguardas e intelectuais orgânicos (Negri; Hardt, 2016: 139). Isto foi também antecipado tanto por Fanon em 1961, quando alertou para “o papel quase sempre nefasto do líder” (1968: 151); quanto por Iván Illich, em 1968, mandando “para o inferno” as boas intenções dos que veem de fora com teorias prontas: “venham ver, venham escalar nossas montanhas, desfrutem nossas flores. Venham estudar. Mas não venham ajudar” (Illich, apud Acosta, 2016: 98).

Por mais de 13 anos Singer coordenou a SENAES (Secretaria Nacional de Economia Solidária, órgão do Ministério do Trabalho), e esta edição traz um belo artigo-testemunho de um dos seus colaboradores, Valmor Schiochet, que o acompanhou ao longo daqueles anos. Tendo consciência dos limites estatais, em especial dos seus como gestor do Estado na implementação de políticas públicas de ecosol, nunca se vislumbrou como operando uma panaceia que redimiria e salvaria aos pobres. Pelo contrário, tinha ciência de que neste campo atuava mais “como um papel passivo de apoio”, que, por mais que fosse relativamente importante, não substituiria à organização popular, pois complementar e subsidiário à mesma.

Um caráter militante e comprometido caracterizou Singer, sem prejuízo à sua qualidade acadêmica. Dentro de sua vastíssima produção intelectual, registro sua participação nos livros “São Paulo, 1975: crescimento e pobreza” (produzido em 1975 pelo CEBRAP a pedido da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo); e “São Paulo: o povo em movimento”, que organizou em 1980 junto com Vinicius Caldeira Brant[6]. Eles demarcam seu profundo envolvimento com os processos sociais de luta e transformação em curso naquela difícil e ditatorial época, especialmente por se tratar de obras de importância ímpar para a ocasião, produzidas com o propósito de “contribuir para que o potencial de organização e expressão das classes trabalhadoras se torne conhecido e possa desenvolver-se” (contracapa de “São Paulo: o povo em movimento”).

Michael Löwy (1996) com Singer conviveu intensamente nos anos 1950/60, e dele se “considerava um discípulo” [7]. Perguntado sobre como definiria Paul Singer, assim o fez:

“Alguém que ao mesmo tempo tinha uma formação econômica marxista sólida, conhecia perfeitamente Marx, Rosa Luxemburgo, e tinha um engajamento sindical, operário e político muito forte. Ele tinha a preocupação de manter um vínculo com o sindicato e os sindicalistas, com as lutas operárias e com a esquerda, buscando uma alternativa política marxista fora dos quadros do Partido Comunista e da socialdemocracia, tal como era representada exoticamente pelo Partido Socialista”.

Paul Singer constitui um raro, precioso e inspirador patamar de experiência, inteligência, generosidade, lucidez e abertura de espírito. Advindo da cultura judaica, e solidamente ancorado no mundo existencial-político paulistano (como demonstra Eugenia Loureiro em seu artigo nesta Revista), no pensamento marxista e autogestionário e na reflexão econômica, em verdade não se pode reduzi-lo a nenhum destes campos, estritamente falando, pois ele nunca se deixou aprisionar por estreitos limites. De algum modo, transcendeu sua condição de “paulista”, “marxista”, “economista”, e até mesmo a de “judeu”.

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