Paul Singer socialista: prefácio a uma Utopia Militante – edição alemã

Paul Singer, socialista: prefácio à Uma utopia militante

Michael Löwy[1]

        Paul Singer (1932-2018) foi um dos mais importantes pensadores do socialismo democrático em nossa época.  Profundamente envolvido no movimento operário brasileiro e na luta por um futuro socialista no Brasil, não deixa de ser um espírito universal, cujos escritos, como o documenta este belo livro, tem um caráter internacional, e merecem ser lidos em todas as línguas. Em numerosas viagens ele teve a oportunidade de discutir suas teses com socialistas de vários países.

            Paul Singer não era somente um brilhante intelectual, um universitário reconhecido, mas também um militante socialista, que nunca deixou de participar ativamente nos movimentos brasileiros reivindicando e buscando o socialismo democrático – sobretudo o Partido dos Trabalhadores (PT), do qual ele foi um dos fundadores em 1980. E é como militante que ele tentou pôr em prática suas ideias, como secretário de planejamento na gestão de Luiza Erundina (PT) na prefeitura de São Paulo, e mais tarde como secretário nacional de economia solidária nos governos de Lula e Dilma Rousseff (PT). 

            O socialismo democrático, segundo Singer, sobretudo a partir de 2000, se distancia das teses clássicas de Marx e Engels, para privilegiar a economia solidária, o cooperativismo autogestionário e as iniciativas operárias e populares autônomas. Mas mesmo os partidários do socialismo revolucionário marxista – como o autor deste prefácio – reconheciam o interesse das suas propostas. Um exemplo disto é a resposta do economista  João Machado –  na época dirigente de uma corrente de esquerda do PT, e partidário do planejamento  democrático (versão Ernest Mandel) – à intervenção de Singer no debate sobre o socialismo no PT: apesar de desacordos evidentes, ele adere à proposta de construção do socialismo de baixo para cima e reconhece a importância do que Singer chamava de “implantes socialistas” na sociedade existente (cooperativas autogestionárias, iniciativas de economia solidária).    

            Sem dúvidas, as ideias de Paul Singer sobre o socialismo evoluíram bastante, desde o início como militante nos anos 1950. Seu filho, o cientista político da Universidade de São Paulo (SP) André Singer menciona um fascinante artigo, “Socialismo e Democracia”, publicado em 1951 na revista da juventude judaica Dror. Mas não deixa de existir uma continuidade fundamental: a rejeição de todas as variantes autoritárias do socialismo (que têm no stalinismo sua expressão mais sinistra), a exigência de liberdade, igualdade e democracia, e a recusa do capitalismo como sistema profundamente injusto e explorador.

        Eu conheci Paul Singer em 1955, quando ele era um militante operário sindicalista e tentava organizar uma Juventude Socialista, ligada ao Partido Socialista Brasileiro (PSB).   Ele tinha seis anos mais do que eu e se tornou imediatamente meu mentor político. Sua principal referência era Rosa Luxemburgo, cujas ideias econômicas e políticas ele me ensinou: foi uma verdadeira descoberta,  que marcou de forma decisiva minha compreensão do socialismo revolucionário e democrático. Graças a Paul Singer, me converti ao “luxemburguismo”, e até hoje continuo a me identificar como tal. Esta é uma grande, uma imensa dívida intelectual e política que tenho com meu caro amigo de juventude.

         Decepcionados com o PSB, Singer e seu jovem discípulo resolvemos participar, junto com outros militantes (Hermínio Sachetta e Maurício Tragtenberg) da fundação de uma pequena, não, minúscula organização política, a Liga Socialista Independente, cuja principal, ou melhor, única referência política era Rosa Luxemburgo. O nome foi proposto por Singer, que na época simpatizava com um grupo dissidente do trotskismo norte-americano, a Independent Socialist League, da qual um dos dirigentes, Hal Draper, vai publicar vários notáveis volumes sobre o socialismo democrático de Marx.  

              A partir de 1961, passei a viver na França e só voltei ao Brasil a partir de 1980 (início do fim da ditadura). À cada visita ao país não deixava de visitar, com minha companheira Eleni Varikas, o Paul Singer, de conversar longamente com ele, de aprender com sua sabedoria.  Homem de diálogo, Singer sempre se interessava pelas ideias dos outros, escutava suas opiniões com respeito e buscava se informar sobre o que se passava em outros lugares do mundo. Lembro-me que nos anos 2000 eu insistia, cada vez mais, na importância da crise ecológica e na proposta de um “ecosocialismo”, e Singer mostrava uma grande abertura a esta nova temática, que naturalmente não aparecia ainda em seus escritos anteriores.    

          Nascido na Áustria, que teve que abandonar aos sete anos de idade para escapar do nazismo, Paul Singer volta, graças à publicação deste livro, ao universo de cultura germânica.   É um belo ato de justiça histórica.


[1] Diretor de pesquisa em sociologia no Centre Nationale de la Recherche Scientifique (CNRS – França) e autor, entre outros livros, de Redenção e utopia (Companhia das Letras, 1989), A guerra dos deuses: religião e política na América Latina (Vozes, 2000) e O que é o ecossocialismo? (Cortez, 2014).

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