SOBRE AMAR E APRENDER, por Regilane Fernandes

Na última vez em que ele veio à Brasília, para receber homenagem da Rede de Gestores em Economia Solidária, fomos eu, Vital e Bruna busca-lo no aeroporto.
Eram tempos de disputa de narrativas em torno do Golpe contra a democracia, instaurado em 2016. Estávamos muito machucados com tudo aquilo: a exoneração imposta ao Patrono da Ecosol, o início da supressão da Senaes da estrutura do governo federal e tudo que isto representava…
Mas, aquele era um dia feliz de reencontro, depois de meses sem nos vermos.
Decidimos, então, antes de chegar ao local do evento, passar com o carro, pela Esplanada. De início, dissemos poucas coisas sobre onde estávamos. Apenas o suficiente pra ele retomar imagens dos longos anos de trajeto até o trabalho e de como sua história como Secretário havia influenciado a criação de outras estruturas de ecosol nos governos locais. Ele olhou tudo, silenciosamente. Precisava de um tempo para se situar. Aos poucos, um sorriso emocionado nos sinalizou que ele já estava inteiramente ali, vivenciando aquele reencontro conosco.
Vieram suas costumeiras perguntas, cheias de amor e cuidado. Queria saber como estávamos, como estavam todos, para onde cada um/uma tinha ido e, sobretudo, como estavam sua equipe e os/as companheiros/as de movimento.
Fomos respondendo tudo com um misto de emoções… tristeza, certa revolta, gana de luta, saudosismo, alegria! Ele, gentil como sempre, só nos interrompia para um discreto “Bom!”, “Pôxa, que pena!” ou para um sorriso e um beijo suave no rosto, enquanto enxugava minhas lágrimas.
E então veio a pergunta: “E o que nós estamos fazendo sobre tudo isso?”
Quase sem pensar, saiu a resposta: “Estamos lutando, Professor! Nas eleições, retomaremos tudo! Reconstruiremos as políticas públicas e o Brasil!”. Falamos mais um tempo sobre as perspectivas e o que estávamos pensando para as disputas de 2018.
Ele fez silêncio. Olhou novamente os prédios da Esplanada e seguiu, mansamente: “E as pessoas? Quem está disputando as pessoas?” Silêncio. Ele: “Vejam, nunca fomos bons em ganhar a máquina. Eles (nossos adversários) são. Nosso diferencial sempre foi conquistar as pessoas, somar com elas. Sem isso, já entramos em qualquer eleição, derrotados. Alguém está pensando em como disputar as pessoas? Como localiza-las, saber onde estão, dialogar com elas, ajuda-las a se reanimarem e se reorganizar na sua necessidade de ser comunidade, de viverem bem, de serem felizes?”.
O carro tomado por aquele silêncio constrangido de quem não tinha aprendido tão bem a lição, seguido do óbvio: “Tem razão, Professor”…
Paul Singer era assim, a própria expressão de suas convicções ideológicas.
Constrangia-nos, cotidianamente, a sermos melhores, sempre mais. Melhores pessoas, melhores militantes, para materializarmos o mundo melhor que almejamos. Por isso, ainda dói não tê-lo aqui do lado, para aquela “troca de ideias” que nos reaprumam no que é essencial. Por isto, também, ainda está sendo tão lento transmutar dor em simples gratidão.
Perdoa, pai Singer… De tudo que ainda não aprendi direito, o tema do “desapego” é a novidade pra mim. Acho que foi o único sobre o qual nunca tiramos um tempo para conversar e me fica esse vazio de referencial de como agir, do que sentir, mesmo em dia festivo como o de hoje.
Vou exercitando aos poucos. Ancoro-me na alegria e na graça de ter partilhado seu cotidiano, ter dialogado tão diretamente com o seu pensamento, ter tido a oportunidade de te ler no que não estava escrito, mas vivido.
Mais do que os livros, são as nossas conversas (e tudo que anotei sobre elas) às quais me reporto, para reconstruir minha própria inteireza de estar na vida, no mundo. Seguir sendo militante da causa maior, elemento de soma para fazer do mundo o lugar de gente feliz e humana como você mesmo foi. Como você trabalhou para que fossemos.
Do abraço que desejei te dar hoje, releve as lágrimas e receba apenas o *“FELIZ ANIVERSÁRIO, Professor!”*
Te amo! Te amarei sempre!

Beijos, com Amor, saudade e alegria.

Tua filha do coração, Regilane Fernandes.
(Brasília, 24/03/2019)
🌸🌼🌻🌹
#PaulSingerPresente
#FelizNiverPaiSinger ❤
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2 thoughts on “SOBRE AMAR E APRENDER, por Regilane Fernandes

  1. Entrevista. Paul Singer fala sobre o novo pensamento economico socialista e sobre os papeis do Estado, dos trabalhadores e dos movimentos sociais no desenvolvimento da economia solidaria no Brasil. Por Renato Rovai e Anselmo Massad.

  2. Lindo a simplicidade de se importar com todos!Sem ficar preso somente aos seus anseios e sim no coletivo. Acho que em meio a crise esquecemos de perceber que somos todos iguais, precisamos das mesmas coisas, logo precisamos sempre ficar unidos sempre buscando as nossas necessidades comum sem nunca esquecer que sempre vai existir alguém precisando mais de uma atenção prioritária!

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