Depoimento de Paul Singer sobre Chico de Oliveira

Chico de Oliveira, Antonio Candido e Paul Singer

Eu queria antes de mais nada agradecer, aos que organizaram esse seminário e essa homenagem ao professor Chico de Oliveira, o convite para aqui estar. Eu estive em Brasília, por isso me atrasei. Estou contente de ter conseguido chegar e muito mais contente ainda de estar presenciando e vivendo esse momento.

Francisco de Oliveira não é só um intelectual de nome e destaque, um grande professor universitário e um grande militante político. Ele é tudo isso, porém, é uma grande alma humana e eu tenho a honra de contá-lo entre os meus amigos.

Queria dar um depoimento, acho que é a única coisa que eu posso fazer, lembrando um pouco uma jornada comum que começa lá por volta de 1969, 70. Nessa época nós tínhamos sido aposentados prematuramente pelo regime militar, pelo AI-5, e um grupo dos que foram aposentados nessa Universidade criamos o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o CEBRAP, que ainda está aí e espero esteja por muitos anos.

O CEBRAP foi a nossa casa comum, do Chico e minha, por cerca de vinte anos, quase vinte anos. E o Chico não era professor da USP e nem foi aposentado. Ele foi devidamente exilado, internamente, pelo papel importante que teve na fundação e implantação da SUDENE – que a meu ver divide a história do Nordeste em um antes e um depois -, estava morando aqui em São Paulo e teve a ousadia de ser meter com um grupo de pessoas que tinham sido, pouco antes, exiladas definitivamente do ensino universitário. Estávamos todos proibidos de lecionar.

Ele se juntou a nós – depois outras pessoas também vieram ao CEBRAP – e estivemos juntos tentando forjar, eu diria, uma “interciência humana”. Cada um de nós veio da sua especialidade. Eu vinha de Economia, o Giannotti da Filosofia, outros da Antropologia, Sociologia, Ciência Política e assim por diante. Porém, estávamos todos juntos. E procurávamos, em trabalho que hoje se chama de interdisciplinar, responder às grandes questões que se antepunham não só ao Brasil – nessa época mergulhado no pior período do regime militar, período após o AI 5 – mas também à América Latina. Eu me lembro que começamos a discutir juntos, o Chico, o Fernando Henrique, Octávio Ianni, Giannotti e  Elza Berquó, a questão da marginalidade, da exclusão social e se o fato de que o capitalismo produz a exclusão social é uma coisa inerente a ele mesmo ou é uma herança histórica do desenvolvimento incompleto. Isto nos ocupou um bom número de anos. Naquela época (vocês vão rir agora porque acho que poucos se lembram) a grande ameaça à humanidade não era o “eixo do mal”, mas as mulheres que tinham filhos, o excesso de natalidade que faria o mundo explodir. Havia, portanto, grande angústia e muito dinheiro (quanto mais angústia mais dinheiro). Para se discutir isso o CEBRAP inteiro, não só Elza e eu que tínhamos estudado demografia – o Procópio também -, mas muitos outros mergulhamos nesse debate dos neomalthusianos. E certamente aprendemos muito. A história acabou soterrando essa discussão e permitindo que problemas mais reais emergissem mas, de qualquer forma, juntos discutimos. Eu me lembro: tomamos todos nós aulas de estatística com a Elza Berquó, eu dando aula sobre a teoria do emprego, enfim, nós realmente criamos uma capacidade de nos comunicar cada um a partir da sua especialidade.

Chico era tido como economista, era um dos economistas do CEBRAP. Só que ele é formado realmente em Ciências Sociais. Estudou economia mais tarde. Isso é uma vantagem imensa, viu Chico. Você tem uma formação que eu nunca tive e outros mais estreitos acho que nem chegam a pensar que poderiam ter. Acredito que isto foi uma contribuição do CEBRAP, foi uma contribuição de todos nós, sua evidentemente mais ou, no mínimo, tanto quanto todos nós.

Um momento que eu queria recordar, de 1972, foi particularmente interessante. Nós tínhamos formado um mesão, um lugar em que se debatia com colegas do Rio de Janeiro. Era a Conceição Tavares, o Pedro Malan e vários outros que vinham, mais ou menos a cada quinze dias, lá do Rio de Janeiro para debater os trabalhos deles e os nossos. E foi num desses mesões que o Fernando Henrique apresentou um trabalho dele – ele fazia constantemente análises da situação brasileira, particularmente do regime militar, do seu significado – em que afirmava, se a memória não me falha, que o regime militar era não só economicamente avançado, progressista – porque havia o milagre econômico, sem dúvida a economia brasileira estava prosseguindo no seu desenvolvimento (esse ponto era importante porque Celso Furtado e tantos outros tinham imaginado que o país regrediria economicamente e não foi isso que se deu) – mas que, ao lado disso, o regime militar também era socialmente avançado, progressista. Este trabalho foi distribuído para nós lermos, era um trabalho interno, para debate.

E dois de nós – o Chico e eu – resolvemos responder por escrito, o que não era absolutamente usual. O que se fazia era colocar questões em debate, todo mundo falava, era um debate extremamente interessante, acirrado algumas vezes, mas muito raramente alguém se dava o trabalho de escrever antes do debate. E os dois o fizemos. E os dois discordamos bastante dessa tese do Fernando Henrique, isso lá em 1972, se a memória não me falha.

Isso prenunciou muita coisa que se seguiu depois e que acho que nenhum de nós três, nem o Fernando Henrique, nem o Chico, nem eu, poderíamos saber. No fim do regime militar houve a fundação do PT, houve em 1979 o momento de divisão de águas essencial. Chico e eu estivemos juntos tentando formar um partido socialista, um partido socialista popular e depois todos nós acabamos de certa forma sorvidos pelo imenso magneto que foi Lula e o PT.

Isto nos dividiu. O Fernando Henrique e muitos outros acabaram optando por ficar no PMDB. Com a razão, é importante recordar isso, de que não estava na hora ainda de dividir a oposição ao regime militar. Em 1979 o regime militar estava longe ainda de acabar. Acabaria só em 85 e houve debates importantes lá em São Bernardo, inclusive, com a presença do Fernando Henrique, do Almino Afonso, do Plínio de Arruda Sampaio, uma série de figuras históricas, sobre se a esquerda brasileira deveria formar um partido, sobretudo um partido de classe, partido dos trabalhadores, certamente antagônico à classe capitalista, à burguesia e ao capitalismo, ou se deveríamos manter essas diferenças no segundo plano para manter uma frente única de resistência democrática ao regime militar. A opção foi feita e nós fomos ao PT. Muitos de nós. E o PT é essa história que agora nos explode um pouco na cara. Construímos todos nós, certamente o Chico e eu, junto com dezenas ou centenas de intelectuais, de pensadores, de lideranças da igreja, dos sindicatos, cientistas, artistas, enfim, não vou recordar tudo isso.

Em certo momento houve uma crise de identidade do PT. Estou falando de uma coisa recente, estou falando do ano de 2001, se não me engano. Por quê? Porque há uma crise mundial do socialismo, não estou revelando nenhuma novidade, desde a queda da União Soviética e a contra-revolução neoliberal, e numa certa altura alguém disse que já estava na hora de superar essa coisa de socialismo no PT. Isso criou uma polêmica negativa contra a idéia de que o PT pudesse renunciar à sua missão, à sua ideologia, à sua razão de ser ancorada no socialismo. E nesta ocasião Lula foi ao Antonio Candido e perguntou se ele estaria disposto a organizar seminários sobre o tema do socialismo. Antonio Candido aceitou a tarefa e sugeriu para ajudá-lo o professor Francisco de Oliveira, que neste momento está aqui no centro de nossas preocupações, e eu. Formamos uma trinca que depois virou um sexteto e organizamos não uma série mas três séries de debates – com a ajuda da Fundação Perseu Abramo, com a ajuda do próprio Partido, da Secretaria de Formação e do Instituto Cidadania – sobre temas e o socialismo. Eu estou feliz com esse trabalho – Chico fez uma das conferências mais importantes – vários de nós fizemos dos mais diferentes ângulos e isso está hoje registrado, felizmente publicado e eu acho que contribui de alguma maneira para atualizar a discussão político-ideológica dentro do PT.

Agora, chegamos lá. No ano passado elegemos Lula presidente, mas não só isso. Fizemos do PT o maior partido do Congresso brasileiro e hoje muito mais que a metade do governo federal brasileiro se compõe de lideranças do PT. O PT, se não é o único partido, longe disso, é o partido dominante, o partido que dá o tom ao governo federal e eu diria, em grande medida, ao Congresso. As políticas implementadas por esse governo são ainda pouco nítidas, exceto uma, que é a política macro-econômica, ou seja, o combate à inflação como principal e quase único objetivo – pelo menos nesse momento – levando a economia no mesmo  modelo – e, inclusive, acelerado – que o governo que foi derrotado nas eleições  adotou nos anos anteriores.

Isso está evidentemente precisando de um debate sério. E esse debate está sendo de alguma maneira travado aqui na Universidade, em outras universidades, em seminários, em conclaves e debates que estão diretamente relacionados com as assim chamadas reformas e com as pessoas e agrupamentos diretamente atingidos por essas reformas.

Estamos num momento muito especial na história do país, e especificamente, na esquerda – pela primeira vez em toda a história brasileira exercendo o poder federal. Não é o poder absoluto, graças a Deus, em democracia não há poder absoluto, mas sem dúvida exercendo mais poder do que exerceu em qualquer momento dos últimos sessenta e tantos anos. Acho que nisso não há nenhum exagero. A nossa passagem pelo governo na época do João Goulart não tem nada a ver com o que está acontecendo agora. Daí a importância desses debates.

Eu queria dizer que embora aposentados os dois, Chico e eu – eu fui aposentado contra a vontade pela segunda vez – estaremos nesses debates dando a nossa contribuição, procurando aprender e estando juntos com todos os que querem mudar esse país, os que anseiam por uma sociedade bem diferente, bem mais decente, humana, igual e realmente democrática, não só no nosso país mas em todos os países.

 

 

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